“Não falem dessa mulher perto de mim”. É com samba, muito bem à brasileira que me reporto à Amy Winehouse, cuja arte se encerra por aqui.
Por mais mórbido que pareça, eu imaginei, várias vezes, ter que escrever uma postagem sobre a Amy, mais que isso, sobre a falta dela. Provável até que eu fosse antes, mas o “previsível” para tantos se confirmou. E a velocidade da notícia, que anda agarrada à cauda da luz, não só anunciou, como avaliou, como deu como previsão confirmada, julgou e, como não poderia deixar de ser, fez piada.
Ridículo repertório fomos obrigados a assistir. Parece que o universo das drogas é algo externo aqueles que não vivem no show business. Tá ali, na nossa esquina, perto de nós, às vezes dentro de nossa família. Triste daquele que acha que é questão de decisão pessoal, associado à vagabundagem, à safadeza. Difícil é procurar entender o motivo pelo qual entrou e a dificuldade de se livrar. Não vou longe. Pergunto aos que fazem uso de álcool e cigarro, entre os quais me incluo, e que se colocam indeléveis na avaliação dos que utilizam outros tipos de drogas – as consideradas ilícitas – e que comprovadamente matam menos. Do lado de cá, quando escrevo, acompanhada de uma cerveja e um cigarro, admito a minha consciência de que isso mata mais, embora dê menos manchete. E mata – diferente de outros casos – o usuário e a outros, anônimos inocentes, como nos inumeráveis casos de acidentes de trânsito causados por pessoas alcoolizadas.
Não, isso não é apologia ao uso de droga nenhuma. Falo também de um lugar consciente, mas que não sofre tanta avaliação, tanto julgamento nem preconceito. Falo de preconceito porque não vou sofrer nada, caso essa cerveja e esse cigarro que me acompanham acabem e eu caminhe, a menos de cem metros de minha casa para buscar mais, pague com dinheiro ou cartão, não importa. É permitido. O álcool mata, mas é legal e todos os artistas dão o seu aval. E quanto ao cigarro, Quintana, poeticamente, já advertiu: “Desconfia dos que não fumam: esses não têm vida interior, não tem sentimentos. O cigarro é uma maneira sutil, e disfarçada de suspirar.”
Outro ponto importante é que nos apropriamos de maneira ilegal da vida daqueles aos quais admiramos. Não sabemos lidar com a vida daqueles que elegemos como nossos ídolos, dos quais nos tornamos fãs. Eles disponibilizam para nós a sua arte e tomamos conta do resto. Damos à mídia a audiência necessária para que esta viva de explorar a vida íntima, os escândalos, os problemas, a intimidade de pessoas, que não são mais que “pessoas”, falíveis, com passado, com traumas, com medos, dificuldades, fragilidades, que não nos dizem respeito.
Eu posso dizer que aprendi sobre isso. De deixar de contaminar a minha admiração artística por alguém pelo fato de estar demasiado perto da vida pessoal. Fez mal. E o distanciamento fez bem. O que o artista tem pra me dar está ali: no palco, no disco, no DVD...
Eu escolhi a Amy. Falo isso porque alguns dos nossos “ídolos”, praticamente são impostos. A vida te obriga a conhecer. Isso não os diminui, de jeito nenhum, afinal, temos o direito de perceber e optar por sua presença em nossa playlist obrigatória. Mas a Amy foi garimpada. Surpresa minha, quando a ouvi pela primeira vez e depois de dar uma busca de imagens, não me deparar com uma negra, dada a voz forte, marcante. Era a menina branquela, jovem, de visual excêntrico, de uma ousadia ainda mais encantadora.
Além das canções, como a maioria das pessoas, deixei-me contaminar pelas notícias, pelos escândalos, pela invasão da vida de um ser humano com problemas. E ainda assim, eu conseguia ver uma tristeza, uma falta, uma solidão, algo que, aos meus olhos, mesmo que incógnito, talvez fosse capaz de justificar todo aquele estardalhaço.
Tive a felicidade de assistir a um show de Amy Winehouse. Sequer bebi para ter plenas condições de saber de tudo, de lembrar de tudo. Fiquei tensa ao perceber uma Amy bêbada, que errava letras, que parecia criança no palco e não sabia que milhares ali tinham pago para vê-la. A sensação que eu tinha era que a responsabilidade de tudo aquilo ali estava sobre meus ombros. Não queria ver ninguém decepcionado, porque eu sabia do que ela era capaz e ela era capaz de algo muito bom. Ainda que os jornais do Recife anunciassem a expectativa do público por uma Amy completamente desequilibrada, eu apostava no oposto: queria ver o “show” que eu sabia que ela era capaz de proporcionar.
E entra idas e vindas, erros de letra, tropeços e quedas, ela esteve lá, no show de maior duração na turnê pelo Brasil, ora fazendo cara de feliz, à vontade. Ora de incomodada, como se aquilo fosse um suplício, mera obrigação, exploração da relação contratual muito acima das suas condições e vontades pessoais. Mas vez por outra, o vozeirão ecoava de tal forma capaz de silenciar qualquer comentário maldoso ou qualquer expectativa de fiasco, frustrando as notícias do dia seguinte.
Se fosse fácil, todos estariam salvos. Essa é a maior verdade. Amy é só um exemplo público de uma mazela mundial que não escolhe classe social, cor, gênero, nem nada.
Recuso-me ao discurso senso-comum de que ela teve o fim procurado. Reivindico aqui a artista de talento esplêndido e que não deve ser comparado a outras divas ou a outros tantos gênios que coincidentemente morreram aos 27 anos. Falo de Amy Winehouse, da contagiante soulmusic tão bem representada por ela, ainda que branca. Falo da mulher que cantou para ouvirmos. E que paralelamente tinha uma vida que não contribuía para que essa beleza se prolongasse. Voz em excesso, talento em excesso, vida em excesso, sabe-se lá, para recompor tantas faltas.
Pressa de viver, quem sabe. Vontade de ser feliz, eu tenho certeza.
Por Amy, saudade, carinho, respeito. Tudo em excesso.
Tim-tim!
P.S.: Foge à proposta do blog, eu sei. Mas a perda daquilo que a gente gosta também foge a todas as propostas.
Moni.


9 comentários:
as vezes somos levados para caminhos www.carlosemanuel.com
Emocionante Moni...
Tim-tim!
O mundo da boa música perde uma de suas representantese...
Texto muito bom e que nos possibilita pensar outras questões que estão para além da Winehouse.
Beijos.
Moni, o vosso discurso, que é de tamanha excelência, retrata a figura:'humano'.
Abraços
Priscila Cáliga
Cara, teu texto ficou muito bom!
- delicado, honesto.
que puta frase final, nesse p.s.
tua escrita é de quem sente a vida pulsando.
não há o que questionar nisso.
grande beijo!
Acho que por textos como este sou tanto admirador seu!
Daí eu percebo quanta gente (até eu por descuido) é infeliz nos seus julgamentos e mesmo opiniões sobre qualquer assunto!
A gente ouve palavras em ônibus, em qualquer lugar, soltas, breves, como se dali saísse uma verdade absoluta...
Há uma falta de senso geral, uns fazem piada em momentos de reflexão...
Obrigado por isto, pela reflexão, por sua sensibilidade!
"Voz em excesso, talento em excesso, vida em excesso, sabe-se lá, para recompor tantas faltas."
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