domingo, 16 de outubro de 2011

"O malandro na praça outra vez"



Para quem gosta foi longa a espera. Mas Chico Buarque está de volta, com álbum que carrega o seu nome, justificando-se, bastando-se assim.

Como era de se esperar, Chico retorna arquitetando letras e melodias, fundindo com capricho o que sabe e sabe bem, de maneira intensa e com o agregar da magia de viajar por outras paragens, experimentando outras personagens, outros gêneros, expondo a multiplicidade que carrega em si.

De cara, minha atenção especial para a canção Sinhá, introduzida pelo maravilhoso violão e o doce assobio de João Bosco, onde Chico narra e ao mesmo tempo encarna, com beleza e dor, a pele negra de um escravo prestes ao castigo do seu senhor, pela possível (e não imprevisível) relação com Sinhá.

Ir além na atenção à letra comove pelo já tão sabido trato com o escravo, como aponta nos versos  “(...) para que me pôr no tronco/ para que me aleijar (...) para que que vosmincê/ meus olhos vai furar (...)”. É também perceber o apelo religioso, a comparação cristã, o curvar da cultura diante da ação etnocida “ (...)por que me faz tão mal/ com olhos tão azuis/ me benzo com o sinal da santa cruz (...)”. Não bastasse, entre tambores e caxixis, Chico revela o sincretismo como resistência, fôlego necessário para não perder a fé “(...) eu choro em iorubá/mas oro por Jesus (...)”e a ela entregar, em desespero, a sua própria sorte.

Mas a beleza da dor ainda causa o quase-espanto pelo desfecho escolhido pelo malandro, que em outros tempos já até perdoou por ter traído. Após uma canção inteira negando, explicando e suplicando para não ser castigado diante da sua inocência, Chico agora narra, como quem se exime das culpas, e traz à tona, de volta, o malandro, entregando quase em segredo, o que nem o medo e o risco conseguem impedir - o amor: “(...) e das mandingas de um escravo/que no engenho enfeitiçou Sinhá”. 



Os primeiros shows da nova turnê já têm local e data. Para os fãs, vale agendar:

Belo Horizonte
Palácio das Artes
de 5 a 8 de novembro

Porto Alegre
Teatro do Sesi
28 e 29 de novembro
Curitiba
Teatro Guaíra
de 15 a 18 de dezembro

Rio de Janeiro
Vivo Rio
de 5 a 29 de janeiro

São Paulo
HSBC Brasil
de 1 a 25 de março

6 comentários:

Priscila Rôde disse...

Salvador que é bom, NADA! :(

Guilherme Sakuma disse...

Puta som. Gosto muito de "Barafunda" e "Nina".
Confesso que quando vi a capa e o título, achei que se tratasse de um negócio caça-níquel - tipo uma coletânea ou algo tão ruim quanto.
Hoje é um dos meus álbuns favoritos do Chico.

Rafaela Figueiredo disse...

aiai. sou só suspiros... *-*

[engraçado que ontem, conversando com o Thiago, meu namor, eu te citei, qdo ele me perguntou quem, entre ele e Chico, eu preferiria se fosse pedida em casamento! hahahaha te parafraseei: eu sou casada com ele, meu bem! embora ele nem saiba. hahaha]

beijo, sua linda!

Fernando Costa disse...

Hey Mô

Valeu a dica - Valeu Saber Disso - Valeu a espera.

Pra vc um beijo giganteeeeeeee neste teu coração do bem, desejo tb uma semana de mta inspiração e mais uma vez quero te dizer sua presença em meu blog agiganta a lira.

Sinta-se verdadeiramente abraçada.

Fê.

Muda Germinada disse...

Adorei descobrir esse blog. Já virei seguidora.
Parabéns!!!
Quando puder, visite meu cantinho:
www.mudagerminadadejardinsalheios.blogspot.com
Beijo,
Janaina

Dilberto L. Rosa disse...

Ah, Chico já é covardia: é a perfeição da Poesia épico-cronista a serviço das belas canções de amor vagabundo... Muito boa a tua análise de uma pequena obra-prima, que chega sem alarde, mas que é tão genial como os melhores anos buarquianos! Viva Chico!