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quinta-feira, 3 de março de 2011

Receita


Ir ao encontro do medo
Ainda que de olhos vendados.
Buscar o calor do abraço,
Relaxar os punhos cerrados.
É que ainda é cedo
E tudo mal começou:
Subir no próximo vagão
Independente de quem o deixou.
É prestar atenção
Reduzir a tensão
Ou não.
Pois por ser começo
Está permitido o avesso.
É que a ousadia
Essa louca, assanhada, arredia
Pode estar escondida no noturno silêncio
Pode estar recolhida no vazio imenso
Da retirada,
Da incursão.
E pelo sim, pelo não,
Desacorrentados daquilo que é fase
Nada mais nos separa
Além de um inexpressivo quase.
* Poema publicado na Revista Cultural Novitas n°9
** Imagem capturada do blog: www.estaluanova.blogspot.com 
*** Enquanto isso, tem promoção no Bordel Bordado. Passa lá!

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Alvo


A palavra certa
Que se faz forte
A palavra inquieta
Que requer sorte
A verdade aberta:
É a palavra-corte.


Imagem capturda do blog: www.blogdamarciamoreira.blogspot.com

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Tô no Bordel!


Por enquanto somos cinco, para receber bem a quem chegar por lá: Carol Freitas, Letícia Losekann, Marjorie Bier, Talita Prates e eu.

Somos "sócias" do Bordel Bordado, mais uma investida literária pra falar de um tudo através das palavras femininas, mas bem longe dos rótulos de fragilidade. 

Vem visitar a gente?

sábado, 8 de janeiro de 2011

Infalível.

 "Mas que asa (...) só ganha quem planta
no escuro do braço, essa semente de
poder voar" (Maria Rezende)

Noite alta, descortinando o outro dia sem pressa. A permitida lentidão do raciocínio, resfriada pela chuva que cai lá fora, ainda é capaz de mastigar cada fatia do dia que se propõe, lentamente, feito conselho de médico. Só assim para absorver tudo o que pode conter de bom, nutrir-se de possibilidades e chegar à constatação: a tendência ao erro. Sim, pode ser um dia perfeito para errar. Se não se tratar de tendência, digamos que seja disposição. Havia mente, corpo e todas as sinapses dispostas ao erro. E no espinhoso lugar das conseqüências, vácuo.

Não era um pensamento que arquitetava erros clássicos, estáticos. Não era o dia de buscar no desgastado “pra sempre” um lugar almejado, intocável, emoldurável, onde o sol sempre brilha, a lua é sempre de amantes e se chove, é prata. Seria clichê, até pueril gastar o desejável erro crendo num futuro de se alcançar e parar, puxar o freio-de-mão da vida e sentar no trono da contemplação com a sensação de fim de estrada. Treme mais do que faz tremer. Erro tolo. De uma obviedade em que lucro cederia lugar ao luto. Previsível resultado frio para um método morno.

Era uma vontade de erro de alta temperatura. Erro de iminência. Inevitável. Um erro sem depois, sem amanhã. Também não guardava imagem maquiavélica de tridente na mão. Um erro e pronto, daqueles que, quando criança, um dedo em riste e uma cara amarrada dariam o indicativo de que jamais deveria ser repetido. Mas nesse caso, fale baixo, por favor, é erro repetido sim, mas com aquela tal aresta clássica aparada. É erro adulto. É erro para maiores.

E para os maiores, grandes erros. Tão grandes que jamais ousaria repeti-los amanhã. É erro pra hoje, sabe? É erro inconseqüente, daqueles que, quando adolescente, um mês sem mesada daria o indicativo de que jamais deveria ser repetido. Mas nesse caso, por favor, não conte a ninguém, porque é erro repetido sim, mas com aquelas arestas infantis aparadas, não haveria choro de perda, pelo simples fato de que não houve busca cultivada, então nada se encontrou. É erro maduro.

É erro tão maduro que precisa ser saboreado já. Encontra-se na sua maior doçura, na estação certa. É hora de comer e tê-lo, de cometê-lo, usando as mãos, a boca, deixando escorrer pelos braços, sem se importar se faria sujeira, se mancharia. Aliás, as roupas seriam as únicas testemunhas, capazes de guardar quaisquer marcas. E nada além, nenhuma memória suficientemente forte a ponto de resistir a um pouco de água e sabão. No dia seguinte haveria maquiagem bem feita e se os olhos não estivessem espertos, acredite, seria apenas sono.

Um erro sem medo, consciente, único, objetivo, de tal forma a parecer frio e óbvio. Um erro que cede, apenas: ao tempo, à claridade e à confirmação de que a faca perdeu a lâmina. A forma pode ainda ameaçar. Mas serve apenas para isso: para que não se perca a sensação humana, a resposta endócrina ao ato de brincar com fogo.

Não restará cheiro, muito menos saudade. Não se dispersará em curvas, em planos, em suspiros ou desejos póstumos. Precisa manter a magnitude. É relâmpago. É explosão. Não carrega punição como acessório, é erro só e pronto. É a única coisa ímpar nisso tudo. A ação, a vontade, se unem pelo velho e único caminho retilíneo que liga dois pontos. Dois pontos certos a desejar o erro.

Desconheço coisa mais próxima de um grande acerto que um erro bem cometido. 
Eis o plano.

Imagem capturada do site: www.cheffrode.net

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Da (inevitável) ordem natural das coisas


                                                                             
Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer.
(Chico Buarque)

Passado o tempo necessário
É dada a hora de recomeçar.
Era o que eu bem já sabia
Mas o tal do imaginário
Relutante a negar
Na contramão, antilibertário,
Mesmo com o mundo a girar
Na mesma toada insistia
No lugar de outras notas cantar.

Hoje o peito anistiado
De fôlego inteiro, retomado
E a velha vontade de repetir:
Para chegar é preciso ir.

Não é que me falte medo
Mas é que me sobra vontade
De repente, acordar mais cedo
Sentir a inédita verdade:
É que abismos, meu caro,
Foram feitos pra saltar
E de súbito me jogo
É a pressa de sentir logo
O gosto que me é tão raro:
O prazer de experimentar.

A busca: o que é intenso
Quero tudo de uma vez
Descobri que perder o senso
É minha maior lucidez.

Imagem capturada do blog klaud-mar.blogspot.com

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

A cada um, a cada uma


O meu carinho mais especial.
Obrigada pela companhia, pela atenção,
Pelo tempo dedicado,
Pelo olhar apressado,
Pelo simples estar!

Beijos e desejos do melhor ano de nossas vidas... por enquanto!

Moni.

Imagem: CC Creative Commons

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Enquanto isso...


...a posia se faz apressada, lá no Curta-Metragem.
Até lá.

Para ler "Altruísta", clique aqui.

Imagem: arquivo pessoal.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Revista Cultural Novitas N° 8

Olá, meu povo!

Logo abaixo vocês podem conferir a 8ª edição da Revista Cultural Novitas, onde mais uma vez tenho a alegria de compor o grupo de autores, desta vez com o conto "O Nado e o Nada".

A partir deste número a Revista terá também a sua versão impressa. Você pode adquirir gratuitamente a n° 8 e fazer a assinatura das próximas através do email contato@editoranovitas.com.br



É possível fazer o dowload deste e dos números anteriores direto no site da Editora. Basta clicar aqui.
E como 2011 será um ano cheio de agradáveis surpresas, a Editora Novitas estará lançando a coletânea "Palavração", da qual eu também faço parte e que você pode conhecer os autores clicando aqui.

Mais uma vez o meu agradecimento a Letícia Losekann Coelho e David Nóbrega pelo espaço e oportunidade.
Espero que gostem!

Abraços e ótimo fim de semana!

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

#PazNoRio


                                                                        "Pede perdão pela duração dessa temporada"
                                                                                            (Chico Buarque)

“Polícia e milícia”
Pra rima pobre,
Pergunta nobre:
Quem vai prender o traficante?
Quem vai julgar o comandante?

Se a intenção é de ser crítico
É preciso admitir
Que o verdadeiro vício
Desde o início
É o político.
Quem é que pede pra sair?

Imagem: UOL (25/11/2010)
 

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Dos (des)Encontros


Do que pude sentir
Já te sabia.
Não te encontrei,
Nunca te vi.
Mas outra forma não havia
Amor acontece à revelia
Inútil repreender.
E ele veio:
Fez sentir
Inteira ao meio
Sem sequer te conhecer.


Para ouvir João e Maria, aqui.
Imagem capturada do Arouca's blog.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Alquimista


A falta mais exata é daquele cheiro que eu não lembro. Talvez por ter passado de tal forma rápida e lancinante a ponto de não me deixar esquecer o resto, que ficou muito bem guardado.

Ouvi: - Não há fórmula! E esbravejo não ter visto se constatar o infalível método, já tão conhecido: de súbito, cretino, a me levar pela mão, dizer o mesmo repertório canalha, fazer um comentário dispensável, repetir as cenas batidas, ser previsível. Seria muito mais fácil. Junto com o sol, viria a decepção, amenizada pelo fato de ser esperada e a minha constatação científica de que  é sempre assim e sobre o meu salto, protegida pelo peito estufado da experiência, destilar, em metáforas, o veneno de mais um mito quebrado. Arranharia o reverenciado quadro. Destituiria o festejado rei.

Mas não.

Ouvi: - Não há fórmula. E ali estava a sabedoria. Era frase hipnótica que mandou às favas minhas infalíveis receitas, meus escudos de proteção que mantiveram, quase sempre, pelo menos um pé bem firme no chão.

Olhos de serpente e coração de pedra. E na boca, além da maciez obscena, a frase cimentada a me imobilizar:

- Não há fórmula.

E não há. Lembro que o cinza da noite chegava até o chão do preto asfalto. Lembro que não havia mais ninguém. Lembro de duas mãos a segurar meu rosto garantindo que suas palavras-flecha entrariam por todos os buracos da minha cabeça oca, me fazendo crer que mais tarde, pouco tempo depois dali, seria amanhã e que dias adiante, haveria um dia de festa. Só do cheiro não consigo lembrar.

E eu tinha pressa. Queria o amanhã mais cedo. Queria o dia de festa que viria depois. E era tudo tão quase-certo, que mal podia esperar acordar. Aflita, escolhi ver o dia chegar. Mas o amanhecer, o entardecer e os dias seguintes provaram que o mais importante fora dito no início, feito cartão-de-visita e com isso, absolveu-se de todas as culpas:

- Não há fórmula.

Imagem: CC (Creative Commons)

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Palavra-festa


Infalível palavra, encontra sempre a fresta
Seja densa, rarefeita
Sutil ou intensa
Vestida de poesia é festa
Traje de noite ou de dia, enfeita.
Seja palavra - é o que importa
Jamais inútil, jamais em vão
E que haja sempre intenção
Até na palavra morta.

Este blog que veio substituir a antiga "Caixa de Pandora", completa hoje 3 anos, com quase 15 mil visitas, com 140 amigos e amigas que  acompanham as verdades vividas ou inventadas que flutuam por aqui, com infinitos comentários, complementos necessários, quem mantém a palavra viva.
Viva! Viva a palavra, viva a escrita, viva a poesia!
Meus agradecimentos sem-tamanho aos que repousam por aqui seus olhares, que dedicam seu tempo à leitura, que dão um retorno ou não, simplesmente passam. Aos que aqui, feito espelho, buscam o seu reflexo. Também pode acontecer. Há um pedaço significativo - e indispensável - de cada um de vocês por neste espaço.
É tudo construção. E nada faço só. Sem vocês eu não seria.
Um grande abraço.

Sugestão para ouvir, aqui.

Imagem: CC - Creative Commons

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Solo de Baixo



(...) Brinque com meu fogo, venha se queimar
Faça como eu digo, faça como eu faço
 Aja duas vezes antes de pensar(...)
Chico Buarque


Mais baixo.
Sussurre.
Balbucie de tal forma
Que eu não ouça mais a diferença
Entre lábio, orelha e língua.
Que eu ignore a distância
Entre seios mãos e coxas.

Mais baixo...

Vê a malemolência suave dos dedos sobre as cordas.
Vê e transporta:
Dedos – notas
Cordas – corpo.
Descobre o melhor caminho,
Acorde.
Levante.
E (semi) breve.
Solfeje os desejos
Em arranjos de volúpia.
Des – componha-me.

Toque-me:

Mais baixo.
Mais baixo.
Mais baixo...


Um Bom Conselho para ouvir.
Imagem capturada do site: http://flaviodogd.blogspot.com/ 

terça-feira, 12 de outubro de 2010

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Perde o salto e salta

                                                                         Imagem: Monalisa de Leonardo da Vinci


Terei, só eu percebido
Que o ontem é lugar esquecido?
E num instante, refaço: ontem, mesmo, é aqui do meu lado
Mas seu nome,
Esse sim, bem mais longe, é passado
E até te cedo a tardia escolha:
Enterrado ou cremado
Ou mais simples, bem mais eficaz:
Calado.

Resta pouco, pois, a dizer
Quanto vale o teu esquecer?
Pagaria caro, sem sentir prejuízo
Pra não ter o meu nome no desafino preciso
Da acidez da tua boca de fel
Que morde e estraçalha a verdade
Deixa o gosto da maldade
E encobre o mundo com o véu
Entre as letras lambidas que nomeiam tua vaidade.

Se já não te enxergas no espelho
Te afogas no raso, de razão, nem um triz,
Meu último ato cristão – um conselho
Escolhas, por fim, ser feliz.
Pois se te fazes tempestade,
Dia e noite a insistir
Desculpe, a minha felicidade,
Sequer lembra do teu existir.

* Sugestão para ouvir, aqui.
** Nem toda poesia é autobiografia.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Revista Cultural Novitas Nº 7

Mais uma vez tenho a honra de estar na revista eletrônica da Editora Novitas.
Agora você pode acessar o site da editora para fazer o download ou usar o leitor eletrônico abaixo.
Obrigada mais uma vez, Letícia Losekann e David Nóbrega, pela oportunidade.

domingo, 19 de setembro de 2010

O beijo e seu endereço *


                                                                                   Foto: " O beijo" de Rubens Gerchman 


Li, em algum lugar do passado, um texto que falava sobre o tal “beijo no coração” e a cadeia de possibilidades, de sentimentos românticos que poderiam ser desencadeados pelo recebimento do próprio. Um beijo no coração recebido e estava posto o enigma: perceber a entonação, identificar o olhar, ler o movimento labial, tudo para encontrar o real paradeiro que o tal beijo queria tomar. Não lembro bem do desenrolar do texto, mas lembro que tinha acordo em achar um carinho meio esquisito para determinadas pretensões.

Já ganhei vários desses. Embrulhados com laço de fita e brilho no olhar como brinde. Confesso que não gostei, quis devolvê-lo prontamente e falei isso ao doador do beijo. Não, não foi rejeição minha, tampouco mau-agradecimento. É provável que eu não estivesse carente de beijo no coração, pelo menos naquele momento.

É uma pena, mas não dá pra sentir qualquer resposta do corpo a um beijo no coração. Vai ver que meu desejo tinha um endereço mais visível e mais fisicamente viável e sensível. Sem falar na perda criminosa de uma oportunidade de tocar o corpo, sentir o gosto, compartilhar da respiração, tudo sem deixar qualquer vestígio.

Eu não consigo mandar beijo no coração de ninguém. No da minha mãe, talvez. Sinto o beijo no coração como um ato que possui um carinho muito específico. Aquele carinho que ergue um muro largo, alto e resistente entre a boca que beija e o órgão que recebe. Nesse caso, o beijo me parece ficar na altura do peito, e do peito mesmo, não do seio. Quem dera! Será que é porque dizem que coração dos outros é terra que ninguém anda? Obviamente, se não se anda, muito menos se beija.

Estou certa de que no momento em que me dedicam “um beijo no coração”, essas palavras vieram acolchoadas de um carinho gigantesco. Mas no fundo, ou nem tão fundo assim, ainda que meio inconsciente, a intenção é outra. É como mandar um “beijo no juízo” Já ouviu esse? Eu já. Pra mim não passa de um recado, do tipo “cuide-se, tome juízo!”

O beijo no coração também tem entrelinhas, carrega seu recado implícito, ainda que pra mim, que o conheço bem, escancarado. Mandar esse tipo de beijo é pra reconfortar. Algo do tipo: um beijo no coração pra você que tem o seu tão inquieto, agoniado. Esse beijo no coração traz no bolso um elixir de paz, alento. E conforme-se só com ele, viu, baby? E assim, delicadamente, com um beijo resolve-se um mistério, esfria-se a caldeira do desejo, apaga-se o neon da expectativa. Beijo no coração é praticamente um ansiolítico!

Só se for pra você. Beijo no coração me deixa nervosa, não me aquieta a alma, não descompassa meu ritmo cardíaco, não causa nenhum suspiro, muito menos tira do casulo as borboletas que tanto querem bater asas no estômago...

Nunca vi carinho tão fisiologicamente comentado. Mas é isso mesmo. Quer me tocar o coração? Beije-me a boca, o olho, a orelha, as costas, a barriga, o pé. Descubra meu ombro para beijar. A distância, eu garanto, é muito menor, e o resultado, garantidamente eficaz.


* reedição de um texto já publicado aqui. é que esse beijo continua me incomodando. rs.

domingo, 12 de setembro de 2010

Oração da Rua*


Que esta rua seja minha
Sua, dela, de quem queira
Fins de tarde, noite inteira
E a liberdade como vizinha.

Que seja nosso o banco da praça
De direito, não de graça
E que venha o dia
Que se faça na rua alegria
Seja a dele, ou a do 'maluco-beleza'
Pois são tantos tons a compor Fortaleza.

É a minha cidade-aquarela
E bela - por querer sujeito
Quem só conheceu esmola e preconceito.

Do "Passeio Público": ver o mar.
No "Coração de Jesus": repousar.
Cantando notas de improviso
Sonhando um futuro impreciso
Mas que o batuque, o sorriso não nega:
Que jamais seja a cidade cega
A não reconhecer passarinho
Aquele a quem só falta o ninho.

*Poema classificado em 1°lugar no Concurso de Poesia Crítica  da Faculdade Cearense em agosto de 2010

Imagem capturada do blog: www.somosandando.worpress.com

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

(Im) Previsto

 
Na noite em que ela julgava que fosse a mais igual, com um céu de estrelas cartograficamente organizadas, tomou-a, de súbito, a possibilidade de desmontar aquele todo já friamente planejado. Daquelas estrelas, a mais bonita e iluminada, logo mais iria, de certo, parar bem em cima dela, dando um brilho de nobreza aos sonhos que ela mais gostava: os que vivia acordada.

Sem nada concreto, sem qualquer palavra que acenasse com uma possibilidade, que fosse, vestiu-se com um sorriso que era capaz de mantê-lo até sob a água salgada do mar. Rapidamente colocou seu mundo numa ordem apresentável. Empurrou alguns problemas para debaixo do tapete, ateou fogo nos restos da noite passada e borrifou cheiro fresco de flor sobre a insistente fumaça densa de solidão que lhe fazia companhia.

Ela se enfeitou, perfumou-se, pôs flor no cabelo e um par de brilhantes no olhar. Dali em diante era só aceitar a companhia redundante do relógio, seu rodear disciplinado e repetitivo de ponteiros que não descansa, não para pra respirar, não interage e é de tal forma frio e desumano, que se quer lhe pedia calma ou desejava sorte.
 
E era isso. Estava desde sempre entregue à sorte, pois nada, absolutamente nada lhe dava garantia para a construção dessa felicidade antecipada. Nenhuma caução, nenhum seguro, nada. Ninguém a autorizou o sorriso, ninguém a presenteou com a esperança dentro de sua caixa bordada em cores.

E assim experimentara todas as posições de espera: gastando o piso do corredor, visitando cada quadrante da cama, as diversas alturas dos batentes da escada, em cada uma das cadeiras, sobre as pedras... A cada mudança, não lhe custava muito ficar na ponta dos pés e lançar um olhar esperançoso pela janela. Mas lá fora a noite caminhava igual e nenhuma estrela mostrava pretensão de descer nem dava sinais de que viesse clarear seus sonhos.
 
Depois de um tempo sem fim, a última posição – não escolhida, mas a única a qual reagira: o corpo reto e ímpar sobre as cobertas pares. As luzes aos poucos minguando, o cheiro de flor se esvaindo, o sorriso fechando suas portas e os olhos cerrando em escuridão. Findou-se o perfume, apagou-se o brilho e da secura daquela cena, uma única lágrima, autônoma e implacável, ousou regar o travesseiro numa tentativa inútil de fazer brotar ali as lembranças do que já foi suor, de unhas nele cravadas, de sons que nele foram contidos, de suspiros em exaustão. Mas era tudo árido e estéril, incapaz de fazer nascer qualquer coisa. Havia só um vazio de pensamento que preencheu a madrugada com um sono oco.
 
Ao acordar, o sol já alto demonstrava que tudo continuava igual. Tudo exatamente igual ao momento em que ela, por vontade, por necessidade própria, decidira que estava no comando das escolhas e entregou-se à pintura de seu painel de ilusão.

Qual nada. Ao redor os lençóis quase intactos e o livro entreaberto com o último trecho lido grifado com lápis verde-escuro: (...) É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. (...)*

Talvez uma madrugada vazia em lugar à festa planejada tenha agregado importantes lições. Havia tristeza naquela manhã, mas havia também consolo. Mais uma vez não sabia de onde vinha mais esse sentimento, mas era coisa sua acreditar no que sentia e conceder vida a isso tudo. E dessa vez sentia tanto, tão intensa e profundamente, que era capaz de apostar que em breve estaria cara a cara – e de pé - com um velho desconhecido: o amor.
 
* Trecho de Clarice Lispector em Felicidade Clandestina
Imagem capturada do site www.carlossimo.arteblog.com.br

sábado, 14 de agosto de 2010

Dos opostos



Lua
Feito o que sinto:
                te
       cen
cres

Ato
Feito o que vejo:
min   
        guan
                  te.


Sugestão para ouvir: Marisa Monte - Ontem ao Luar
Imagem capturada do site: www.astronoo.com