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sábado, 20 de fevereiro de 2010

Das noites nos dias


Aqui:
Bem do lado do leito
Talvez pra forçar rima boba com peito
Mora o côncavo que deixaste
Um quase-retrato do corpo teu
Feito temporal e abismo
Não que nele me empurraste
Mas que vez por outra me deixo cair
Sim, eu cismo!
E até pra melhor te sentir
Lembro-me que sou côncava também
Pelo peso das horas que iam além
E que éramos um, resistindo em partir.
Mas ontem sonhei
Em rara noite de calmaria
Que ao acordar, feito canção
Havia tua resposta ao meu bom-dia
E aquela antiga aflição
A tomar conta de mim:
Entre o real e a ilusão
Abraço inteira a noite sem fim.

Imagem capturada do blog www.arturguimaraes.wordpress.com

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Medida



Quanto?
Tanto!
Quase aquilo que ficou
Melhor parte do que restou
Inteira de querer
Noite de acontecer
Ruas de te achar
Vida de me perder.

Imagem googleada.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Metapalavra

Não havia uma multidão correndo atrás de mim querendo me punir. Não foi isso. Também não passei a receber cartas de estudiosos em Literatura a me questionar. Eles nem teriam tempo. Nem tive pesadelos com sílabas poéticas caindo sobre minha cabeça, ou a fórmula métrica de um soneto se desenhando misteriosamente sobre a tela do meu computador. Nada disso.

Foi bem mais simples. Deparei-me – e não é a primeira vez – com a instigante discussão acerca da responsabilidade de quem escreve. E aí sim, chuva de perguntas: Por que escreve? Para que escreve? Com que direito publica? E feito isso, como se intitula?

Instantes de ruga na testa e acuada por uma seta que apontava para mim, relaxei, desarmei e deixei cair os escudos ao som da linda canção da Mariana Aydar, que me veio à lembrança com ternura de absolvição:



"Eu não escrevo pra ninguém e nem pra fazer música
E nem pra preencher o branco dessa página linda
Eu me entendo escrevendo
E vejo tudo sem vaidade
Só tem eu e esse branco
Ele me mostra o que eu não sei
E me faz ver o que não tem palavras
Por mais que eu tente são só palavras
Por mais que eu me mate são só palavras”



Se as palavras me saltam, eu salto junto. Não tenho medo de altura, nem de avaliação. Para o meu português ruim, há dicionário. Não meço, ignoro a métrica. E por puro desacordo, ignorarei também o Novo Acordo, até o último dia. Não conto as sílabas, nem os versos. Não me prendo, simplesmente porque não me pretendo tanto. Se elogiam o ritmo, agradeço, mas ele acontece, é porque a vida é assim, ritmada, ora mais lenta feito bolero, ora sofrida feito tango, ora mascarada de alegria feito samba-canção. E também porque leio Elisa Lucinda, que escreve – ela sim, consciente – com um ritmo incontestável, com rimas desinibidas, arteiras, a deslizar por entre os versos, dando um tom à leitura, que mais parece música.

E eu com isso? “Eu me entendo escrevendo e vejo tudo sem vaidade”. E balancem a cabeça em negativo: eu quero escrever um livro. E também plantar uma árvore. E também quero ter um filho. E depois disso tudo, só aí, eu meço a vaidade. Porque eu quero um livro pra sentir a combinação do cheiro desse meu entendimento com o das páginas novas. Eu quero plantar uma árvore bem maior que aquele feijãozinho que a gente colocou no algodão molhado na escola, lembra? E que meu filho leia muito, e com isso se sinta crescer ainda mais que a árvore.

Não é o desprezar da Teoria Literária, longe disso, por favor! Reivindico-a! Mas é a mais simples reivindicação da palavra, sem esperar, em nome disso, qualquer troféu. E há pressa, porque o prêmio se constitui na escrita, na possibilidade de dizer enquanto é tempo, onde ouso citar Clarice: "As palavras me antecedem e ultrapassam, elas me tentam e me modificam, e se não tomo cuidado será tarde demais: as coisas serão ditas sem eu as ter dito."

Ofício para alguns, necessidade para outros, prazer, vício, vaidade e até arrogância, para tantos outros. Motivos não faltam. E entre os meus, não há o de mudar o mundo. Não sozinha. Não com as minhas palavras. Mas as palavras me modificam, são terreno fértil onde jogo o que pulsa para crescer, o que pede para extravasar, clama para ir além. É o que não cabe em mim. É o que insiste em não ficar do lado de dentro, porque o seu endereço está, na verdade, aqui fora. E de fora, só quer respirar. E se alguém desejar inspirar fundo comigo, que bom! Braços abertos!

“Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro.” (Clarice Lispector)

Despretensiosa, vez por outra, me sinto flor.

Imagem capturada do site www.rexonateens.com.br

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Meu dizer conjugado


Lendo as cotidianices tão bem retratadas pela Martha Medeiros, dei de cara com a minha própria fala. Sim, ela mesma, a tagarelice, a minha necessidade de dizer as coisas, de deixar tudo muito claro, de esgotar-me em textos, de me fazer ouvir e blá, blá, blá.

Há bem pouco tempo, num desses acessos de necessidade de dizer o que sinto para quem sentia, naquela hora, fui questionada sobre estar me humilhando, pois já tinha dito o suficiente. De pronto, o desacordo. Duplo. Não era humilhante. Não tinha sido suficiente. Ambos para mim.

Não era humilhante porque eu não estava pedindo nada. Pelo contrário, eu estava dando. O que eu fazia era entregar momentos, sentimentos, histórias que deveriam ser, necessariamente, partilhadas. Em pleno acordo com a Martha, (...) “Por que a dificuldade de dizer para alguém o quanto ela é – ou foi – importante? Dizer, não como recurso de sedução, mas como um ato de generosidade, dizer sem esperar nada em troca. Dizer, simplesmente. (...) Por que negar ao outro aquilo que é dele, que na minha vida, sem essa divisão, não faria o menor sentido? Trancar vida vivida num vácuo infrutífero e impenetrável, me parece, no mínimo, perda de tempo. Calar essas palavras seriam dar continuidade a um jogo que eu nunca fiz a menor questão de jogar: o jogo da quietude, para manter no outro a sensação de dúvida, no aprisionamento da incerteza, uma máscara que em nada combina com a minha transparência. Prefiro o meu rosto limpo, ainda que, às vezes, molhado.

Suficiente, também ainda não. Isso era óbvio, porque a necessidade se formou. O abismo da ausência não impediu que as congruências continuassem a se construir, mesmo que restritas ao tempo do por enquanto. E se havia interseção, não era só meu. E sem pieguice, me soava como egoísmo guardar no meu espaço ímpar o que só surtiria efeito sendo par. E par, aqui, não precisa ser ao lado. Um par desformado, mas conectado, em algum lugar do universo, por algumas histórias que gravitavam ao redor de duas vidas e cujo desfecho, não foi exibido a dois.


Se você também concorda que foi humilhante e excessivo, saiba que esses dois adjetivos aparentemente pejorativos me serviram de grande alento. Causaram um belo suspiro de alívio. Sabe por quê? Porque eu dividi. Melhor ainda, porque eu entreguei a parte que não me cabia, ou que não cabia somente a mim.

Por isso eu carrego um certo orgulho em perceber que a palavra humilhação, no meu dicionário, aparece lá depois do “z”. Antes dela vem ainda a tentativa, a vontade, a verdade. Causa-me até algum sorriso a lembrança de todas as declarações feitas olhos nos olhos, na claridade, à meia luz, sussurradas ao pé-de-ouvido, ao telefone, por carta, bilhetes rabiscados ou por e-mail. E nenhuma delas por obrigação, ou cumprindo um ritual próprio e obrigatório das relações. Cada uma delas existiu por si e findavam em si. Eram o seu próprio universo. E habitavam boa parte do meu. Essa lembrança não me faz ridícula, nem tola. É meu próprio espelho e eu gosto da imagem que vejo.

Também não há a pretensão de concluir tudo. Não ouso querer terminar de assistir ao seriado lado a lado, ou enviar comentários de cada capítulo, caso eu os veja sozinha. Não me façam tão extrema. Não pretendo a nudez eterna. Mas mais uma vez de mãos dadas com Martha Medeiros, ratifico: “(...) mais que as mentiras, o silêncio é a verdadeira arma letal das relações humanas.
 
 
*citações da crônica “Falar”, do Livro Doidas e Santas, de Martha Medeiros. Editora LP&M.
 
Imagem capturada do blog www.melzinhakoykoy.blogs.sapo.pt

sábado, 16 de janeiro de 2010

Quanto tempo faz?


Peço licença, mais uma vez pra me servir do mesmo mote. Eu sei que o mundo inspira: o sol nasce a cada dia mais espetacular, há noites lindas de lua, a terra treme mundo afora e a poesia – ainda que abstrata – pode se fazer ungüento concreto pra quem sabe um dia.

Mas “me perdoe se eu insisto nesse tema, mas não sei fazer poema que não use o coração como expressão”. Sim, eu abusei. Abusei da entrega, abusei do risco, do salto, da falta de medo, do frio na barriga, dos sorrisos largos. Antes fosse como quando se abusa do uísque, garantindo a perda de memória amanhã. Mas não. Está tudo aqui e minha lembrança fez questão de autenticar.

Quanto tempo faz? Hoje faz tempo. Hoje faz o tempo diferente daquele. Daquele que não houve o medo de que chegasse alguém pra flagrar o desejo incontido num meio de tarde. Entre o vai-e-vem de gente, um beijo seguido do outro, cada vez mais ardente, apenas ensaio da primavera que se anunciava. Mas toda estação tem seu fim. Estação é o fim. E também o começo.

Houve riso, houve flores, houve troca de amores. Houve trilha composta, escolhida meticulosamente para cada passo dado, para cada olhar censurado, para cada noite acordada, para cada manhã, de bobeira, a risada.

Mas é hora de outra temporada. Há cobrança, de todos os lados de um outro tema, de um outro motivo. E me repreendam se eu teimar. Eu prometo mudar, afinal a porta está aberta e só me resta cruzá-la. E é esse o caminho. Eu juro. Menos para aqueles que sabem que eu não sei mentir.

Ficou muita coisa guardada. Falas, gestos, textos. E até silêncio. É a pura lembrança presente. A amarga saudade, insistente. É a prova daquilo que nos faz diferentes.

Quanto tempo faz?


Ao inevitável som de...

Bebel, Dé e Cazuza

 
Foto: arquivo pessoal

terça-feira, 5 de janeiro de 2010



Passado o vendaval
Restos de cinza, poeira
Cabe dizer, que ao final
Minha metade continua inteira.


Aos amig@s e tod@s mais que passarem por aqui, meus desejos de um 2010 cheio de inspiração, saúde, sorrisos e prazeres!

Imagem capturada do blog www.migueldj.blogspot.com

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

(co)mandante


E esse tempo que tudo resolve
Resolve coisas demais
Decide as coisas que vão
Também aquelas que não.
O que era presente, tempos atrás
À lembrança devolve
É retrato, é altar
Imagem que comove
Se foi, e volta a estar.
É o tempo
Em seu trono tirano
Por quem se espera
A hora da decisão
Faz ares de sagrado
Mas age profano
Transforma em quimera
Aquilo que é precisão.

Imagem capturada do blog www.silvanapedrini2008.blogspot.com

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Distração


Parece a melhor recomendação:
Dispersar,
Induzir à distração.
E pronto.
Deixar o tempo passar
Deixar o dia correr
Deixar a noite ser.
Não falo, não conto,
Nem olho pra trás
E ao pé-da-letra
Simplesmente esqueço.
Mas por estar do avesso
Não que me comprometa:
De tanta distração que tive
Sem nenhuma maldade
Acabo de esquecer, inclusive
De dizer a verdade.


Imagem capturada do site www.cantodasletras.uol.com.br

domingo, 29 de novembro de 2009

Dama*


E então, enfim vou dançar
Ao som da tua melodia silenciosa.
Quero ver se acerto o passo
Cá bem longe do teu espaço
Pra não correr o risco de te pisar.
Vou feito dançarina formosa
Daquelas que invadem o salão
Duas voltas,
Uma taça,
Meia prosa
E mais um a me levar pela mão.

* O "batismo" do poema foi feito por Renata Aragão Lopes, lá do Doce de Lira, e carinhosamente acatado.

Imagem capturada do blog conversasemoff.worpress.com

segunda-feira, 23 de novembro de 2009


"(...) Esparramados no mundo
Molhamos o mundo com delícias
As nossas peles retintas de notícias(...) (C.Buarque)"

Antes de dormir o pedido:
Pro dia nascer em aquarela.
Mas foi a flor amarela
A primeira imagem a me aguçar o sentido.
Cor que clareou o meu quarto
Aqui, esse canto esquecido
Que guarda meu choro escondido
Que faz profundo o canto do olho.
Ora finjo, ora sou
Às vezes digo que não estou
Finco o pé ou parto
Faço pedaços do que me é inteiro.
Foi a flor amarela que me fez lembrar
Que eu posso até nos enganar
Desfazer, inverter os ponteiros,
Mas independente daquilo que já se esqueceu
Ainda é a lembrança do teu sorriso
A chave do meu.

Imagem: arquivo pessoal

"Que papel faz um sorriso entre o aqui e o paraíso?" (Alice Ruiz)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009


E dou risada de um grande amor...mentira... (C.Buarque)


Mas era eu,
Que por não ser mais criança
Não podia ter caído nessa brincadeira
Nesse jogo de mau gosto
De te fantasiar de ser o oposto
Da mesmice corriqueira.
Hoje guardo de herança
A solitária idealização
Dos milhares de euteamos repetidos em vão,
No meu pé, o teu beijo
Dessa máscara de desejo,
Desejo de um só endereço,
Menor, bem menor que mereço
Muito menos que eu tinha pra dar.
Vai querer me negar?
Quer dizer que um dia chegou a me amar?
Que num estalar se transforma o amor em erro
E fazes dele o enterro
Sem sequer me convidar?
Faz um favor:
Recolhe cada uma das cenas de teatro mal-feito
Engole cada um dos versos baratos
Apaga aquelas letras escritas sem pudor.
Todos os atos
Registrados de um jeito
Que cicatrizaram embaixo do cobertor.
Não sei de onde veio essa autoridade
De usar da inverdade
Pra despertar a boba menina
Se fazendo de bom rapaz.
Não, não fala mais!
Nem canta no meu ouvido em nenhum idioma
Recompõe, ou melhor, desafina
Pra que eu não consiga traduzir
E possa, enfim, dividir
O que todo esse tempo foi soma.
Aproveita e me livra da cela
Eu não caibo em abertura de novela
E esquece Cazuza e Bebel
Pois não precisas dizer mais nada
Fica assim, onde estás
No lugar de onde nunca saiu
No teu posto, de onde nunca permitiu
A minha oferta de céu,
Minha porta escancarada.
Devolve o meu cheiro, viu?
E vê se leva o teu que esqueceste aqui
É que eu preciso dormir.
Esquece meu rosto,
Meus olhos,
Meus sinais.
Deixa-me livrar do teu gosto
Dos teus olhos,
E de tudo mais.
Enfrento cada meia-noite
Como se a última fosse
São madrugadas de açoite, de rio a correr
É claro que eu sei perder!
Mas é que o sabor doce
Esse, que vinha de um ser
– que hoje eu sei -
Não era você
Ainda faz lembrar feito canção
A tela que eu desejei
O amor que nela pintei
Desperdiçado, largado no chão
Em completo desprezo, desdém
Por alguém que eu criei,
Que nunca existiu, mais ninguém.
A propósito, a saber,
Desprazer em (re)conhecer.


Imagem capturada do blog marianareis.blogs.sapo.pt

sexta-feira, 30 de outubro de 2009


...Aqui faz um silêncio ensurdecedor.
E a luz é fraca, vez por outra, a cada trago do cigarro...

"Se eu tivesse mais alma pra dar, eu daria..."

segunda-feira, 19 de outubro de 2009


Não nasci pro estático
Nem pro estatístico.
Eu não paro
Nem me dou conta.

Conta outra!

***

Ouvir Fátima Guedes, aqui, tornou-se indivisível:

(...)Flor de sentimento
Amadurecendo aos poucos a minha partida
Quando a flor abrir inteira
Muda a minha vida
Esperei o tempo certo
E lá vou eu
E lá vou eu
Flor de ir embora, eu vou
Agora esse mundo é meu.

Imagem capturada do blog www.pracortarovento.blogspot.com

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Faltou entender...


Que amor tem vida
Alma e outros órgãos também.
Que se cultiva a ferida
Conjuga tanto o verbo doer
Fica fadado ao fracasso
Impossível olhar além.

Amor sente saudade
Chora ao ver o dia amanhecer
Reconhece na claridade
A hora de adormecer.

Amor, quando frágil, morre
Galho da flor que não vem
Futuro, pelos dedos escorre
Vira verso ou lembrança,
Amém.
Imagem capturada do blog: http://uketag795.blogspot.com/

sexta-feira, 9 de outubro de 2009



Um passo à frente

E tantas milhas atrás
Pode ser, de repente,
Me alimenta esse gosto de cais

Esse estado,
Ancorado

E atento
A esperar outro vento

Outra aventura, o momento

Do retorno ao mar

De águas claras, o alento.
Metades, só para compor o par

E em braços calmos

Inteiramente amar.

Imagem capturada do blog: www.blogsparceiros.ning.com

domingo, 4 de outubro de 2009



Eu que sempre quis voar
Rogo por gravidade .
Erro grave,
Previsto,
Mas agora é tarde
Grito do alto:
Desisto!


Imagem: arquivo pessoal.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Entrelinhas



Sabe aquele não?

Eu escrevi com lápis-de-olho
Preto, forte

Pra marcar o olhar

E a hora de te esperar


Aquela minha recusa

Aquele jeito de dizer,

Era pra que não me desses tempo

Pra eu tentar me proteger

Era maquiagem

Era eu, dublê de mim.

Sabe aquele não?
Era o modo disfarçado, envergonhado
De dizer apenas sim.



(tarde perceber, enfim...)


Imagem - cena do filme "Nome Próprio"

domingo, 20 de setembro de 2009



Vontade sentida tem vida própria. Tem forma, age e ignora limites. É aquela mão generosa que te empurra do abismo quando teu coração pede pra voar. É mão sábia que te aquieta a voz que insiste em saber sobre a visão da queda e a firmeza do solo.

É a vontade que dá a garantia de que não é queda e sim salto, e por isso mesmo, pode ser para o alto. É a mesma que afirma com propriedade que o chão, seja ele firme ou não, depende muito mais da forma como teus pés escolhem tocá-lo.

Ela - a vontade- substantivo apenas, palavra proferida, não tem nem dá movimento, vazia de vida, desconhece exclamações. Sequer ecoa no vento, porque desconhece a direção. Não vibra, não reverbera. Não escreve história. É truque fonético de mau gosto, ludíbrio que desrespeita a própria língua. É seca no peito.

Vontade, de verdade, é arbitrária. Entende no não o chamado à desobediência. É o convite ao atrevimento que se espera, porque sabe, se é vontade de coração, que há do outro lado o abraço que aguarda a surpresa. Tem certeza.

Vontade tem barulho de motor de carro, de toque de celular na madrugada, de campainha na porta da frente. Tem gosto de beijo sem fim, de intimidade ofertada. Cheiro de perfumes que combinam, de corpos que se dominam.

Que haja, pois, o risco. E a vontade desenhando o traço. Ou tudo acabando em ponto.

Imagem capturada em www.kboing.com.br