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sexta-feira, 6 de março de 2009

Sobre(o)natural.

Estou definitivamente convencida de que fantasmas existem. Existem sim e seu tamanho e poder são diretamente proporcionais à importância que damos a eles.

No primeiro momento, o susto e as naturais seqüelas de quem vê bem diante de si o que já se foi. A palidez no rosto, os infinitos instantes de catatonia, o corpo trêmulo, um respirar sem obter o ar necessário.


E ainda que emanem medo, os fantasmas conseguem aos poucos ir ampliando seu espaço, como se pudessem sobrepujar o tempo e o seu lugar reservado no passado, adquirindo a mobilidade indicativa do presente, o poderio da cotidianidade. E assim, passamos a freqüentar gavetas há muito esquecidas, caixas que pareciam definitivamente fechadas, antigas canções de um repertório já arranhado voltam ao topo da "playlist", fotos amareladas ganham de novo cor, deitamos sob lençóis de um cheiro revigorado. Presença reassumida. Fantasma institucionalizado.


E os fantasmas, nesse estado sem estado definido, se encaixam perfeitamente no vazio do quase. Do que foi quase-vivido, do que foi quase-perfeito. E passa a ser esse o rumo a partir de então: o rumo de uma quase-vida. Quase-é, quase se sente, quase se tem. Só que isso tem cara de quase-morte. A necessidade do que é palpável, do que é sensível é muito maior que o "quase" ora oferecido.


Sorte nossa, pois é nesta fresta que estão as chaves. Bem ali, ao alcance de nossas mãos para que tranquemos de vez os caminhos do ontem, aqueles que já foram trilhados e possamos enfim dar seguimento, mesmo que cambaleantes, com algumas baixas e um tanto sem fôlego. Esse rápido momento de decisão é o que abre espaço para os pecados: do fantasma tomar carne ou de diluirmos nosso desejo pleno nas suas possibilidades limitadas. Ou ainda o pecado de interrompermos o filme antes do grand finale pelo simples fato de seu enredo nos intuir um desfecho conhecido ou muito pouco desejado. Talvez seja melhor dar o destino que queremos aos personagens, nos apoderando da cadeira de diretor-deus, capaz de evitar a decepção da platéia, fazendo valer o que foi pago.


No mais, são só fantasmas. Não são inteiros. E nada pode ser inteiro, porque fantasmas carregam consigo, na bagagem, as mesmas roupas, os mesmos textos. Tropeçam nas mesmas pedras, engasgam nas mesmas sílabas. Sob seus pés, a mesma areia que sujou nosso tapete. Nada adiante. Nada imprevisível. Todas as portas, todos os caminhos precisam que nos viremos para trás para serem vistos. E lá, o sol já se pôs.


Podemos chegar a essa consciência em segundos. Ou em anos. Ou depois de várias vidas. Mas é só de posse dela que poderemos guardá-los na inviolável caixa das boas lembranças, de vidro blindado e chaves perdidas, onde ficarão confortavelmente adormecidos e que podem ser seguramente visitados. Estarão lá, para sempre. Recobertos de uma beleza que os tornará inofensivos e periodicamente presenteados pelos nossos sonhos e sorrisos.


Estou definitivamente convencida de que fantasmas existem. Existem sim e seu tamanho e poder são diretamente proporcionais à importância que damos a eles. Mas se você for o fantasma de alguém, considere apenas o primeiro parágrafo e faça dele um mantra. Do lado de lá, essa história tem outras cores, outros motivos e explicações. E não há ceticismo capaz de imperar.



Imagem capturada do blog: medicinaespiritual.blogspot.com


domingo, 1 de março de 2009

Eu queria mesmo era não ter assunto. Não ter muita coisa a dizer e assim, estar livre para desenhar poeminhas rasos, textos movidos pelo acaso. Falar do som contínuo dessa chuva que cai e que é a música que ouço desde a madrugada. Mas eu vi e vivi a madrugada inteira febril, com a vontade quase necessária de transformar qualquer parte desse todo em palavra, como se isso fosse para mim um remédio, um antitérmico, um antiespasmódico, um antiséptico, um antiofídico, que fosse. Bastava ser “anti”.

Fosse eu mais inteligente, teria feito uso de um anticoncepcional e não estaria aqui a parir palavras em forma de polígonos estranhos que tornam o parto mais doloroso e demorado.

Agora eu preciso é de antídoto. Algo que reverta o efeito, que não faça do dia de amanhã uma necessária e previsível ressaca. Será que aceitam devolução? Uma devolução assim, agendada, que eu possa ficar mais um pouco, mesmo que para isso eu tenha que perder o que já paguei.

É que as prestações – eu não sabia – vão ficando crescentes e é daqui a pouco que me torno um ser inadimplente. Falta pouco para esvaziar o bolso, o coração, o tempo, as possibilidades, as vontades. Em superávit restam-me apenas as idéias, a mente povoada delas, germinando descontroladas, feito pragas de lavoura, mas que não servem de nada. Não pagam, não explicam, não resolvem, não constroem. Ninguém compra, ninguém ouve, ninguém leva a sério, e o que é pior, quase ninguém entende.

Boot. Format. Sem backup, por favor. Quero começar tudo de novo.


Eu não sei o que o meu corpo abriga(...)

Imagem capturada do blog: www. tiagogebrim.blogspot.com

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Alteração de endereço.

Me mudei. Não sei por quanto tempo, não sei se é temporada ou se por lá viverei estações. O certo é que não estou aqui.

Ontem mesmo me procurei. Na sala, no computador e até debaixo da cama. Mas não estava. A mochila estava no armário, sinal de que não tinha levado bagagem, mas no ar pairava um bom perfume, cheiro fresco pós-banho de quem sai de mudança. É, eu fui.

Tô num lugar de não muito fácil acesso, mas também não espero visitas, não. Mas é bem bonito. Fica entre um sorriso doce e um olhar que pede. Há pouco espaço, nem sempre confortável, mas se a decisão for de ficar, abro uma parede aqui, derrubo uma distância ali, um pouco de desejo embutido, pra caber mais... Por enquanto mal me cabe, às vezes nem cabe e a porta não abre. Mas especulo, invisto, o mercado ensinou assim.

O preço? É alto. Às vezes penso que não vou poder pagar e não me resta quase nada.

À noite é um tanto frio, mas eu tenho papel e caneta aqui. E eu projeto os sonhos, desenho lua e sol e vou pregando na parede de onde tirei o velho calendário, criando a agradável confusão de não saber o que é dia nem noite, sem a noção do tempo que poderia me preocupar.
Mantenho uma única vela acesa o tempo inteiro a clarear o caminho. Uma hora eu posso precisar voltar...
Imagem capturada do bloguinhobasico.blogspot.com

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009


Deixa que a chuva lave
Deixa que o vento seque
Deixa que o tempo passe...
Se de nós independe,
Solta, pois, as rédeas
Deita sobre meu peito e sonha...
Deixa!
Amanhã eu te devolvo os ponteiros...




Imagem googleada.

sábado, 21 de fevereiro de 2009


Da vaziedade

Da cidade

E do meu coração,

Não tem samba-enredo,

Não tem aconchego,

Não tem você cedo,
Avenida de ilusão.

Aqui e lá
Só se ouve nota em dó

Meu sol é só

Fantasia em vão:

Isso não dá samba, não.


Imagem capturada do blog: www.letgo.blogger.com.br

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Pausa para ele:


Daqui desse momento
Do meu olhar pra fora
O mundo é só miragem
A sombra do futuro
A sobra do passado
Assombram a paisagem
Quem vai virar o jogo e transformar a perda
Em nossa recompensa
Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado só de quem me interessa
Às vezes é um instante
A tarde faz silêncio
O vento sopra a meu favor
Às vezes eu pressinto e é como uma saudade
De um tempo que ainda não passou
Me traz o teu sossego
Atrasa o meu relógio
Acalma a minha pressa
Me dá sua palavra
Sussurre em meu ouvido
Só o que me interessa
A lógica do vento
O caos do pensamento
A paz na solidão
A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição
A curva do universo
A fórmula do acaso
O alcance da promessa
O salto do desejo
O agora e o infinito
Só o que me interessa

(É o que me interessa - Lenine)

Imagem - arquivo pessoal/ Show Labiata, Fortaleza, 15 de fevereiro de 2009.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

E quase aos 33, um passado próximo...

Toda essa viagem no seu próprio tempo aconteceu aos trinta. Eram trinta anos, dos quais os últimos dez lhe trouxeram um tal peso que a fizera curvar as costas. E a linha do seu olhar também já não mirava o horizonte. O olhar fixo no chão parecia buscar as marcas das pisadas mais seguras, que garantissem menores riscos. Era um andar lento e um tanto desatento, visto que buscava sempre o que havia ficado para trás, revendo paisagens antigas, respirando cheiros já dissolvidos e que a fazia perder muitas coisas, inclusive tempo.

Naquela manhã acordara com quinze anos. Diante do espelho, nenhuma das marcas que exigiam cuidado lhe traziam preocupação. Sorriso nos olhos. Luz nos olhos. Borboletas batendo asas no estômago, provocando aquele aperto adolescente que se refletia em sinais bastante adultos por todos os cantos do corpo. Inquietude completa. Um desejo quase infantil de viver todos os dias naquele.

Assim passou o dia inteiro, debutando naquela novidade já tão familiar. E mastigou cuidadosamente cada uma das horas na intenção de retomar o comando, o compasso da respiração, o senso e tudo mais aquilo que se costuma perder nessa fase. Ainda que cheia de juventude, ficou para ela provado o quanto isso tudo também cansa e mantém longe do cais da tranqüilidade. E mais uma noite fez a roda do tempo girar. E acordara com a cabeça a salvo sobre o travesseiro, fiel e silencioso conhecedor de todo esse vai-e-vem. Tinha quarenta, enfim. E para sua surpresa, todas as marcas reveladas pelo espelho sugeriam uma beleza desconhecida e infinitamente superior àquela dos quinze. Viu que mais que "marcas de expressão", era necessário reconhecer "expressão de quê". E era do melhor.

No corpo uma leveza indefinível. Nem o curvo cansaço daqueles antigos trinta, nem a volatilidade perigosa dos quinze. Voaria, se quisesse, mas poderia prender-se ao chão, se necessário.

A música povoou a casa. Cantou e dançou sem pudores, feito criança. Mas com a consciência daquilo que fazia, feito mulher. Estava tudo claro e arejado. O dia parecia muito mais bonito, simplesmente porque decidiu olhá-lo como o é. Estava inteira e definitiva em si.

Experimentou o sabor de dizer não, de recusar aquilo que não materializava seus desejos, sem sentir culpas pela negativa e nem a mutilação de se obrigar ao que não queria. Disse sim a algo simples, mas que de certo era algo que queria, o que causaria sorrisos largos por quaisquer motivos, pelo simples fato do poder da escolha, independente dos horários, das conduções, itinerários e satisfações.

Usou seu perfume mais fresco e saiu pela rua. Caminhos tantas vezes trilhados, demorados, tinham outra cor e o tempo gasto, se demorava, não importava. Não havia pressa. Não há pressa.

Dali em diante, acordar, independente de com qual idade, significava obrigação de viver. Cada minuto, cada instante. Sem a necessidade de visitar o passado nem de se preocupar com os séculos que estavam por vir.
(Coisas de 2005...)


Imagem capturada do blog www.copacabanadetoledo.blogger.com.br

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Coisas atuais, de tempos atrás...

Acordou devagar. Ao segundo ou terceiro toque do despertador algoz de todos os dias, que hoje consciente, perdera boa parte do seu poder. Abriu somente os olhos. Não havia movimento em nenhum outro músculo seu. Até o coração parecia meio débil. Podia estar assim. E era vontade sua. Levantara num espreguiçar esplendoroso e até então nenhum pensamento viera à cabeça.

Fez o trajeto de costume, mas hoje sem tanta obrigação, o que permitiu um contemplar diferente das ruas, do vai-vem dos veículos e pôde até perceber a música que tocava ao rádio. Cumpriu suas atividades e retornou à casa, com o pensamento repousando sobre os imensos cúmulos que davam um tom algodoado ao imenso céu azul. Imaginava que precisava dar algumas explicações, metaforizadas, mas explicações. O porquê da ausência, o porquê de uma tristeza aparente...

- É preciso que saibam que estou bem. Que se falo de tristeza, é de uma tristeza ressecada, sem qualquer umidade. Que os olhos que vigiam os escritos não possuem em si qualquer vestígio de lágrima. Que essa tristeza retratada em palavras é emoldurada por uma imensa alegria de ter os pés no chão, de conhecer a si de entender os limites, e de entender também as faltas, mas não há motivo para lamento ou qualquer tipo de punição. Que não há motivo para consolo.

Passou a tarde numa preguiça morna. Havia coisas a serem feitas, mas tudo pode esperar. Fez visitas sem culpa ao espelho e cuidou para que o que visse ficasse ainda mais prazeroso. Seus cabelos estão mais curtos e mais negros que nunca. Conseguia ver, de dentro, o sorriso que reluzia em branco contraste.

Não aguardou por nenhum telefonema e eles todos vieram, aos quais deu as respostas que achou corretas. Não marcou nada. Fez-se de desentendida dos convites feitos nas entrelinhas. Recusou-os nas entrelinhas.

Pôs-se a escrever as tais explicações. É chegado o momento do retorno. Está aberta a temporada festiva. Colocou Chico Buarque para tocar, alimentando-lhe a inspiração. Lembrou-se do vinho. Serviu-se de uma taça, hoje vazia de significados, cheia apenas da cor rubra, do cheiro entorpecente e das vontades que ali nascem.

Com a chegada do céu escuro, decide abandonar os escritos e a taça, agora já vazia. Não tinha a menor certeza se conseguira dar as tais explicações. Mas o que era preciso ser sabido já existia. Ela transpirava significados, estavam todos à flor da pele, sem a menor necessidade dos vidros nos olhos para enxergá-los...
Imagem capturada do blog: blogdapalavra.blogs.sapo.pt

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Contraplano


Era pra ser fina garoa
Mas virou um temporal.
Quis escrever um hai-cai
E me deparei com um soneto.
Decidi ficar perto da saída de emergência
E percebi que sequer há extintor.
Desejei cantarolar
E sorvi Chico.
Saí pra ir à esquina
E a estrada longa já ficou pra trás.
Procurei uma flor
E me percebi estampada.
Ensaiei uns passos de samba
E vi que estava em pleno carnaval.

Imagem googleada

domingo, 1 de fevereiro de 2009

(...) Entre nós
Poucos quilômetros de uma linha reta
E anos-luz de uma vontade torta.

sábado, 31 de janeiro de 2009

E essa falta?
E essa saudade do abraço que não se dá,
Do beijo que é só vontade,
Das noites que dormimos juntos em nossas metades.
Das cenas,
Dos atos
Que só em nossa mente é verdade...
E essa falta???

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Não sei de onde tirei a idéia de conjugar esse tal verbo adolescer. É tudo tão remoto, que eu nem tinha me dado conta que existia. Não há espinhas no rosto, mas há uma pressa, uma ansiedade como se a vida me soprasse ao ouvido que tudo termina amanhã.

E não termina. Amanhã adolesço de novo, desço solenemente cada um dos degraus que me fizeram chegar mais alto, que me colocaram numa posição onde eu daria as cartas, eu escolheria as regras, eu começava o jogo. E decidiria também quando parar, no melhor estilo “o jogo é meu”.

Mas feito ordem, desci do salto, calcei rasteiras e percebo que com elas posso correr com mais facilidade. Mas não era preciso correr!

E nessa pressa infinda perco horas parada, esperando a próxima carta. Minha palidez revela que eu não tenho nenhum jogo armado e não sei até quando sobreviverei dos meus bons blefes. O relógio anda pra trás, mas já vejo o inevitável momento da batida.

Nesse revés de tempo, vou perdendo a esperteza de jogadora e me vestindo de fantasia adolescente, de ingenuidade infantil.

Sou minha maior adversária.

Imagem capturada do blog http://vanluchi.blogspot.com/



quarta-feira, 21 de janeiro de 2009


Tempos e tempos de muito calor. De tal forma escaldante, a ruborizar vez por outra a face.
Hoje a chuva caiu forte, um tanto tardiamente, quase imperceptível lá fora, como quem corre atrás do prejuízo.
Não percebera que eu cheguei primeiro, desenhei outra estação, explodi termômetros e ignorei o azul pesado que dava o tom ao céu.
Eu estava leve o suficiente para me colorir...

Imagem capturada do blog www.beautful_angel.blogger.com.br

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009



Vou escolher outra rua, talvez opte pela contra-mão. Assim posso encarar de frente quem vem ao meu encontro. Simplesmente decidi infringir, porque o preço pode ser até bem pequeno diante do que posso encontrar.

Enfeito o meu próprio altar, uso colorido e borrifadas a mais de perfume. Me maqueio de sorriso e canto. Quero cantar alto e falar palavrão. Em outras línguas ou no melhor português. Me transformo em palavras perdidas dentro de um livro que alguém lê e viro imagem.

Fujo de horários, queimo madrugadas, faço companhia à insônia emoldurada por leituras profundas ou vãs. Rasgo longas cartas, abrevio a vida em bilhetes, leio respostas. Sinto meu corpo tremer. Faz um frio... Coloco lenha na fogueira, porque vejo que o calor pode estar ao meu alcance.

Não me preocupo com riscos, nem meço conseqüências. Hoje ainda não acabou, perdi meu relógio e o amanhã é longo.

Entre um trago e outro, respiro fundo e me encho de vida. A bagagem já é grande e seu peso, considerável. Mas vez por outra perco o fôlego, rejuvenesço, me permito tremer sem me preocupar com a nitidez da foto. Não vai ser preciso registrar.

Junto pedaços e faço uma linda colcha. Está aberta a temporada de mim.





Imagem original capturada no blog pitux.blog.simplesnet.pt

domingo, 11 de janeiro de 2009

E a noite se confundiu com uma lua
De tal forma prata,
De tal forma inteira
E que escolheu minha janela como moldura
Me causando hipnose,
Me sentenciando à insônia
Como quem pune a quem ousa disputar um brilho-real.
Ainda assim pareceu generosa
A iluminar-me o corpo por toda a noite
Por cada ângulo...

E a madrugada veio com a claridade
E com saudade
O céu se pôs a chorar...

(foto: Paulo Almeida - www.1000imagens.com)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Silêncio, por favor...

De cada um dos meus defeitos eu sei.

Faço bom uso do espelho, embora só olhe para ele quando me sinto suficientemente forte.

Nem tudo eu preciso ouvir.

Sou minha maior crítica e muito mais dedos apontam para mim do que o solítario em riste, que tenta apontar o que há de humano do lado de lá.

Comportamentos infantis, às vezes, tomam o lugar das duras e grotescas reações adultas. É mais forte quem faz chorar? E a fortaleza de quem troca por lágrimas as armas que tanto poderiam ferir?

A imperfeição passou por aqui e deixou pesada bagagem. E isso é bom, me ocupa, há o tempo todo o que arrumar.

E o espelho, quando eu decido assim encarar, pode me reservar gratas surpresas.

Vez por outra, eu cresço...

"Hoje eu quero apenas uma pausa de mil compassos..."


(imagem capturada do blog:http://passagedusilence.wordpress.com/)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Andaram por ali falando em lugar bom pra morrer. Não acho que haja lugar bom pra morrer, simplesmente porque morrer não é bom. Nessa hora, nessa fatídica hora, dissolvem-se todas as minhas compreensões espirituais, porque eu ainda não aprendi a lidar com a morte e nem com um monte dessas coisas de adulto.

Queria ficar aqui bem muito, até enjoar... E queria que ficassem comigo esse monte valioso de gente que vale tanto a pena.

Mas se enfim, eu tivesse que escolher, queria que fosse no ar, em pleno vôo, de asas abertas. Voar me faz feliz. De avião, de tirolesa, queda livre, pára-quedas, bungee jumping... Desfaço-me em sorrisos...

E teria forma melhor de ir (se a ida for inevitável, claro) que sorrindo?

Eu gosto mesmo é de voar... E por enquanto vou ficando com os meus vôos noturnos, bem altos, seguros...

Deixa-me sonhar...



(imagem capturada do blog anjoii.blogspot.com)

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Pro meu luto eu escolho uma cor só
Uma só canção
O turno da noite
E esse estado líquido
Que há de lavar, o quanto for preciso
O que preciso for...

Não tenho horário marcado.
O tempo é rei, mas a rainha sou eu.

'Não, eu não sambo mais em vão'
E o ano já é quase um passado distante, aquela agenda finalizada, guardada na gaveta, mas a quem eu posso recorrer cada vez que a saudade bater e der vontade de olhar pra trás.

Sem surpresa, posso também olhar para o espelho e constatar que as mudanças começaram há muito mais tempo e para elas não há mais agendas, nem gavetas. Está quase tudo submerso numa poeira que eu não ouso mexer...

Foram trezentas e tantas oportunidades e eu quero acreditar que eu fiz o melhor que pude. Ou pelo menos houve a intenção.

Valeu a pena.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008


Tô vendendo,
Tô doando,
Emprestando,
Trocando, consignando
Quero negociar.

Mas é tudo no varejo!

Sorriso tem pouquinho,
Alguns que restaram da última coleção.
Aguardo as novas tendências.
Mas estes, os remanscentes, são sempre artigo desejado,
Coringas, e com um jeitinho
Combinam sempre.

Tem telefonemas.
Quase sempre em horário comercial,
Quase sempre exigindo uma resposta,
Uma solução imediata.
Mas se você caprichar no ringtone,
Vai ficar lindo com o sorriso aí de cima!

Tempo é ponta de estoque.
Mas é sempre tão bom,
Tão procurado
Que inflacionou.

Tem ainda um bom estoque de presenças virtuais.
Estão sem etiqueta,
E necessitam de uma boa carga de pilhas pra fazê-los funcionar.
Mas há quem tenha disposição.
Por isso mesmo, para estes
Liquidação!

Amizades verdadeiras estão cada vez mais raras.
Essa coisa de pirataria tem prejudicado o ramo.
As poucas originais,
Com garantia,
Desculpem,
Viraram peças de coleção.

P.S.: O tempo, acima anunciado, infelizmente esgotou.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Ainda volto para descobrir todas as luzes, para entender porque tão longe de casa, senti parecer ter enfim, chegado.

Volto para fazer os biquinhos necessários para me fazer entender no meu desejo de um Göffre ao pé da Torre, para dar rodopios à la Satine pelo Pigalle, para andar de bicicleta, para conferir a restauração da "casa" de Abelardo e Heloísa.

Volto para emergir de cada boca de metrô com a pressa de quem quer receber o presente que me espera... Volto para me misturar à Babel gentil que acolhe o mundo que a superpovoa para conferir e se render à inexplicável beleza.

Volto, um dia eu volto. E haverá sorrisos que não se importam com os frios que surgem por lá. Terei o coração quente.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Saudade

Saudade sem nome. Saudade das coisas que tinham nome, que objetivamente faziam falta e por isso compunham o universo da saudade.

Saudade da hora de deitar, quando as preces se limitavam aos pedidos de uma noite tranqüila, que não houvesse pesadelos, que não tivesse ladrões, nem medo do escuro. Mas o dia amanhecia rápido e o cheiro de café que tomava conta da casa atestava que tudo tinha corrido bem. A bênção, mãe. A bênção pai. Saudade de vocês. Do ser único que vocês eram pra mim.

Saudade das bobas preocupações, da semana de provas, dos meses de férias, do cheiro de livro novo. Saudade da campainha pra começar a aula, da campainha pra terminar. Saudade do mundo que eu conhecia tão pouco e tão bem, de tal maneira a dominá-lo como ninguém. Eu era mestra do tempo. Saudade de quando dava tempo pra tudo, até pra fazer nada.

Saudade de quando o amor era só aquilo que eu conhecia, um promotor de sorrisos espontâneos, de olhares perdidos no tempo, que causava frio no estômago, dor de barriga, rubor nas bochechas e medo de minha mãe descobrir. Saudade daquilo que eu ainda estava por descobrir.


Saudade de quando as dores conduziam no máximo ao choro e as lágrimas tinham um poder meio que adstringente, de limpar tudo e depois dos soluços não restava mais nada. Era só esperar o desinchar dos olhos. O máximo que as estripulias e os excessos causavam eram manchas roxas no corpo, jamais arrependimentos ou culpas. Saudade de não saber conjugar o verbo somatizar.

Mas o tempo foi passando e o mundo foi ficando grande demais. A vida foi impondo-me uma ruga na testa que foi se aprofundando à medida que todas as coisas, que antes eram meros acontecimentos, experiências, vida pura, passaram a ser obrigação. Foi ficando tudo sério demais. O que antes era descoberta tomou corpo, ganhou dentes e tentáculos, fazendo de mim um ser responsável por tudo o que me rodeava, ainda que estivesse bem longe de mim, que eu nunca viesse a tocar.

Preocupei-me com dívida externa, com privatização, com a ajuda operária à Bósnia, com a globalização, com a terceira via, com o imperialismo. Ou eu fazia alguma coisa ou... Ou o quê?

Ou nada. Passava também. E inacreditavelmente se transformaria em saudade. Saudade de quando eu achei que eu ajudaria a mudar radicalmente o mundo. Saudade de quando havia mais sonhos. Sonhos grandes, sonhos pequeninos. Apenas sonhos.

Saudade de quando havia tempo pra sonhar. Agora não, é tudo muito rápido e se eu perder muito tempo sonhando, lá se foi mais um bonde da história que eu, desatenta, não consegui pegar.

É tudo tão diferente. As preces são outras e muito poucas por mim. As preocupações são por demais subjetivas, além do meu alcance, dos meus poderes, do meu domínio e mesmo assim são exigidas de mim as respostas. Também não há o cheiro de café, a não ser que eu me disponha a fazê-lo, mas que com a velocidade dos ponteiros do relógio, saio de casa e nem percebo que ele tem um cheiro tão agradável que poderia aliviar a saudade.

Saudade de quando perder tempo não fazia falta, porque não dava pra ver o fim da estrada. Ainda não o vejo, é bem verdade, mas já sei que existe.

Saudade de quando fazer a coisa errada significava, no máximo, errar. Ninguém morreria por isso, ninguém sofreria e talvez nem percebesse. Os erros cabiam debaixo do tapete ou simplesmente escoavam, livres, para o profundo buraco do esquecimento.

Saudade de não passar o hoje inteiro lembrando que tem amanhã, pelo simples fato de que hoje tem mais importância, porque é agora, porque é o meu endereço, porque é o meu limite e principalmente porque ainda não acabou.

Saudade de ontem. E de quase tudo que o antecede.
Saudade, apenas.