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domingo, 4 de maio de 2008

Das Saudades

Rua 53, número 16. Fui até lá buscar curar uma das saudades que eu sentia hoje. Nada mais contraditório ao que penso, ao que sinto, ao que prego. Não havia mais ninguém lá. Será que eu fui a única a sentir saudades hoje ou simplesmente todas as pessoas passaram a crer naquilo que eu também creio, curando suas faltas, suas dores, de outras infinitas, e talvez até bem mais eficazes formas?

Mas eu precisava ir até lá, mesmo sabendo que não haveria o encontro, o abraço, o beijo, o sorriso, depois de percorrer o longo corredor molhado e cheio de lodo, com árvores tão antigas quanto algumas saudades esquecidas por lá. Cheguei ao endereço sabendo que não adiantaria chamar, bater, porque não haveria ninguém para receber. Era claro pra mim, desde o início que seria uma atitude meramente contemplativa, mas que me remetia à necessidade de alguma energia, algum detalhe, qualquer coisa que me aproximasse... Como se eu não vivesse tão próxima, a cada dia, a cada acordar, a cada adormecer...

Pouco tempo para tantos conflitos. Ali, confrontos entre fé, solidão, dúvidas, medo, lembranças, vida, tempo. Tudo apertado e ferozmente amarrado pelo nó da saudade.

Simulei flores, projetei felicidade, ainda que eu não tivesse qualquer resquício de força pra disfarçar a tristeza nem pra segurar as lágrimas.

Eu queria ali alguma resposta que eu jamais encontrarei ou então que de tanto saber, me recuso a admitir. Quando é o final? Por que acaba para alguns, se em mim, eles jamais se acabarão?

O céu estava cinza, no mesmo tom da última vez. Chovia um pouco. As mesmas lágrimas de chuva que eu percebo cair sempre que alguém se vai... Da última vez havia tanta gente... Hoje mais ninguém. Mas a minha necessidade preenchia aquele todo, tão cheio e imensamente vazio, porque as essências, eu deveria saber, não estão lá.

Há muito não me via tão tomada por saudades. Tantas saudades. E em meio a tantos gatos, as únicas criaturas vivas que povoavam aquele lugar, tive a certeza de que algumas delas são irremediáveis.

Angustia a dúvida sobre o que fazer com as saudades vivas, de distância irrisória e que mesmo assim, não consigo um lugar, mesmo que tão frio, onde eu possa chegar, bater e encontrar.

Percebi que é em vão querer me desfazer das minhas saudades. Algumas, buscar, enquanto houver forças, a forma de encontrar, mesmo que às vezes as portas não se abram. As outras, aquelas que é inútil a busca pelo encontro de fato, definitivamente não vou tirá-las de mim, por mais que doam. Pode ser que um dia a dor se transforme em lembrança, mais simples e mais leve, de forma que eu não precise de qualquer endereço para tê-las presentes em mim.

6 comentários:

Alice disse...

Obrigada pelo comentário e pelo link. Seja sempre bem-vinda.
Um beijo da
Alice

vega becker disse...

a saudade é coisa que nunca me arrebatou, nunca me compus em melancolia pela falta de algo ou de alguém. sempre tive por perto aquele calor e a segurança... mas a roda girou seus 180° e hoje eu quase choro por uma saudade que está por vir... é estranho.

lindo lindo seu passeio pelas veredas da saudade.

=***

Simone Oliveira disse...

Acostume-se com elas. É a melhor forma de se conviver.
Minhas saudades tem altar e relicário. Assim, consigo dormir em paz.

Bjs

Renata F. Martins disse...

Saudades faz bem para a memória.
Relembra-se acertos, erros, coisas boas e ruins. TUDO!
E assim que se cresce!
bj

Anônimo disse...

Não é possível que, com tanta tecnologia, ainda não encontraram um remédio pra esse sentimento. Acho que é proposital... Não querem a cura... Se a saudade for erradica, morreremos de saudade de sentir saudades. Já que saudade é o que nos resta pra manter o objeto da saudade sempre presente.

Mara faturi disse...

Belo texto...também não sei o que fazer com algumas saudades vivas; Oferto flores imaginárias, fecho os olhos e adormeço para sonhar que elas são apenas lembranças...