segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Enquanto a poesia não vem



Tudo no seu lugar:
O céu, azul
E as borboletas lá.
Ritmo controlado,
Passo acertado.
Sol se põe,
Lua nasce,
Flor se expõe
Corredeira desce.

Enquanto a poesia não vem
Céu encobre
E não há disfarce:
Independente da classe
Toda rima é pobre.


Imagem retirada daqui.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Dois dedos de prosa com Mário Gomes



Anoitecia lá no Dragão do Mar e eu encontro o poeta Mário Gomes. Ele abre de imediato um sorriso porque olho pra ele, como se olhá-lo fosse a obrigação de reconhecê-lo poeta. E que prazer, eu conheço o poeta!

Falei com ele, dos livros seus que tenho dedicados. Falei de um poema que ele fez pra mim e ele perguntou meu nome. Falei sem a ilusão de que a memória do poeta revirasse ao ponto de me reconhecer e usei como referência o nome da amiga e também poeta Nilze Costa, e dos “Poemas Violados”, onde estivemos tantas vezes juntos, lá no Estoril. Mário lembrou imediatamente. Lembrou dos detalhes da impressão do poema, numa folha grande e plastificada, com um furo para colocar na parede, e que irresponsavelmente não sei onde guardei. Talvez nem lembrou. Talvez era esse o padrão do poeta presentear com seus poemas. Mas seu sorriso me convidou ao pleno convencimento.

Mário, o poeta, vive na rua. Sua imagem suja, decrépita e sem qualquer cuidado, agarrado a uma garrafa de vinho barato, me comove e inspira. Alegra e entristece. Mas Mário não perdeu em poesia e eu guardo a certeza de que ela reside e pulsa sob aqueles trapos fétidos.

Mário parece louco.
Mário parece lúcido.

Mário não deixou de entender que a poesia une as pessoas. Não sei se verdade ou imaginação, insistiu em me convidar para um lançamento de livro sobre Fortaleza que haveria lá em cima. E que teria recepção. E que teria coquetel. E que ele estaria lá, às 19 horas.

Mário me emocionou pelo impacto do que eu já sabia. E eu, lúcida, tentando entender o seu lugar, entre perdas e escolhas, um ser ainda mais parecido com Marquês de Sade, empunhando a bandeira da poesia por onde anda, deliberadamente ou não, entre um trago e outro daquele vinho de quinta.

Mário hoje é da rua.
Mas Mário não é anônimo.

E a criança pedinte, da praça lá do Dragão, vendo a nossa conversa, a despedida e o aperto de mão, pergunta:

- A senhora conhece ele?
- Sim, ele é um poeta, sabia?
- Sim, ele sabe mais que nós tudim. Sabe até mais que a senhora.

Ora, menino... Até você sabe mais que eu!

O menino avisa que vez por outra, os outros até batem nele. É o vinho do Mário, ele fica indefeso. E eu peço pro menino não deixar isso acontecer, que chame um adulto. E o menino diz que não, que ele mesmo o defende.

Mário esteve na última Revista Farol. Mas antes disso, já se fizera eterno.
Pronto, Mário. És imortal. Que ação gigantesca!¹, como disseste, desaconselhável aos puritanos. A tua imagem, a tua poesia é esta cidade. É cotidiana e vivida até o último gole a tua “violenta orgia universal²”.


¹ - Ação Gigantesca - Vida e Obra de Mário Gomes
² - "Uma Violenta Orgia Universal" - antologia poética

Sobre o poeta, santo e bandido, aqui.

domingo, 16 de outubro de 2011

"O malandro na praça outra vez"



Para quem gosta foi longa a espera. Mas Chico Buarque está de volta, com álbum que carrega o seu nome, justificando-se, bastando-se assim.

Como era de se esperar, Chico retorna arquitetando letras e melodias, fundindo com capricho o que sabe e sabe bem, de maneira intensa e com o agregar da magia de viajar por outras paragens, experimentando outras personagens, outros gêneros, expondo a multiplicidade que carrega em si.

De cara, minha atenção especial para a canção Sinhá, introduzida pelo maravilhoso violão e o doce assobio de João Bosco, onde Chico narra e ao mesmo tempo encarna, com beleza e dor, a pele negra de um escravo prestes ao castigo do seu senhor, pela possível (e não imprevisível) relação com Sinhá.

Ir além na atenção à letra comove pelo já tão sabido trato com o escravo, como aponta nos versos  “(...) para que me pôr no tronco/ para que me aleijar (...) para que que vosmincê/ meus olhos vai furar (...)”. É também perceber o apelo religioso, a comparação cristã, o curvar da cultura diante da ação etnocida “ (...)por que me faz tão mal/ com olhos tão azuis/ me benzo com o sinal da santa cruz (...)”. Não bastasse, entre tambores e caxixis, Chico revela o sincretismo como resistência, fôlego necessário para não perder a fé “(...) eu choro em iorubá/mas oro por Jesus (...)”e a ela entregar, em desespero, a sua própria sorte.

Mas a beleza da dor ainda causa o quase-espanto pelo desfecho escolhido pelo malandro, que em outros tempos já até perdoou por ter traído. Após uma canção inteira negando, explicando e suplicando para não ser castigado diante da sua inocência, Chico agora narra, como quem se exime das culpas, e traz à tona, de volta, o malandro, entregando quase em segredo, o que nem o medo e o risco conseguem impedir - o amor: “(...) e das mandingas de um escravo/que no engenho enfeitiçou Sinhá”. 



Os primeiros shows da nova turnê já têm local e data. Para os fãs, vale agendar:

Belo Horizonte
Palácio das Artes
de 5 a 8 de novembro

Porto Alegre
Teatro do Sesi
28 e 29 de novembro
Curitiba
Teatro Guaíra
de 15 a 18 de dezembro

Rio de Janeiro
Vivo Rio
de 5 a 29 de janeiro

São Paulo
HSBC Brasil
de 1 a 25 de março

domingo, 18 de setembro de 2011

Calendários



Bem antes do último dia, suspirava pelos outros, inevitavelmente melhores. Era uma verdade matemática, expressa nos ímpares pelos quais tem mais afeto.

A noite explodiu em cores no céu, abrindo um sorriso em cada tom e cada um dos efeitos era repetido na vidraça clara do olhar. Bastava esperar o dia clarear, sentir os pés descalços na areia, abrir os braços, os olhos e buscar o presente, já desembrulhado e efervescente de vontade de ser.

O que não estava escrito, o que jamais fora previsto é que a velocidade concorreria com a possibilidade, com a vontade e com tantas outras rimas. De repente não foi dando tempo, assim mesmo, no gerúndio, e tudo o que ia acontecendo não ia tendo como continuar. Assim mesmo, no gerúndio.

Foi tudo passando, foi tudo ficando pra trás. Aquele novembro, ainda dá pra ver. Ficou um pouco distante e quando esse novembro chegar, ele irá será magicamente desfeito, oficialmente dissolvido, carregado de descrença para o resto do mundo e ficará guardado na tal caixa-memória, com laço de fita vermelha e uma borrifada de perfume. O pretérito só é perfeito quando guarda um cheiro bom.

Obediente ao poeta, o agosto não foi de esperar setembro, mas ele chegou. Sem festejo, mas trouxe o vento e a presença tênue de pólen no ar. Melhor assim: são flores sem endereço, de cores desconhecidas, vivas, alvoroçadas pelo vento em algum lugar, sem nenhum buquê que as prenda, sem nenhum cartão a elas amarrado, e que carrega, nas entrelinhas um prazo de validade.

Com o vento, o pólen, as flores e a poeira sobre os móveis. É como se o tempo avisasse que é hora da limpeza, da arrumação. Que misticamente ou não, por crença ou superstição, é preciso rever, reordenar, limpar, lavar. Jogar fora o que não serve mais, quem sabe de cinco anos pra cá. O melhor, depois de limpo, pode ficar. Mantém-se na estante. Ou junto com aquele novembro, talvez, para roubar sem alarde um pouco o cheiro bom que ele irá emanar.

Hora da matemática outra vez. É quase sempre possível calcular algo ímpar, cruzar os dois dedos e torná-los um. O mesmo um que pode, em riste, apontar pro alto confessando a posse: este é meu!

Imagem retirada daqui.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Hoje é dia de Maria!!!


..."andando por ali, por acolá", cheguei no Maria Clara - simplesmente poesia para integrar esse grupo de poetas maravilhosas: Renata de Aragão Lopes, Talita Prates, Úrsula Avner, Hercília Fernandes, Nina Rizzi, Adriana Karnal, Lou Vilela, Adriana Godoy, Maria Paula Alvim e Wania.

Obrigada às meninas, pelo convite.
E todos e todas que passeiam por aqui, sintam-se também convidados para conhecer o Maria Clara.


quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Do nado ao nada.



Noite imensa, com ares de interminável. Chovia lá dentro. Mas só lá dentro. Do lado de fora, apenas a ventania da tal primavera que não colore essas cercanias e cujas flores enfeitam somente a poesia que gravita. Vento, muito vento a remexer as ideias, a testar, feito quebra-cabeças, a peça correta no lugar ideal e formar alguma imagem, alguma paisagem, quem sabe de um campo de flores. Mas o vento voltava e a tudo desorganizava, como quem desdenha do desejo lírico de encontrar a verdade, os porquês, as saídas.

Junto com o sol, apenas uma resposta veio clarear: o motivo dos seus braços tão cansados. De olhos fechados pôde ver que nadara demais. Foram dias, horas, estações, folhas de calendários vividas em mar aberto, com braçadas que apontavam para qualquer lugar que não fosse o que estava. Era preciso tomar distância em grandes goles, embebedando o corpo com a ilusão de que havia calmaria no cais. De que haveria calmaria. De que haveria cais. De que haveria.

Houve erro de direção, houve tormenta e houve descoberta. Sem bússola, sem astrolábio, sem Sagres e sem intenção. Sem cais e sem calmaria também. Nadara praticamente uma vida e sem qualquer esforço, seus pés tocavam o chão. Não, o tempo, a distância, as braçadas não levaram à profundidade. Tantas noites de céu com menos estrelas que o comum e a permanência no raso, no superficial, no epidérmico. A pele ressecada, o gosto de sal compartilhado entre o mar e os olhos e a praia como única certeza, a terra: o lugar menos firme que já pôde conhecer.

Não se sabe onde o rumo foi perdido. Ou talvez a consciência tenha partido de uma rajada de vento, de uma onda mais violenta. A disposição de chegar à profundidade incluía a possibilidade de afogamento e isso era sabido. O que não sabia, é que ainda estava completamente submersa e talvez não sobrevivesse a mais uma imersão sem garantia, num espaço de tempo incontável, que não cabe em si nem no mar.

Há fortes possibilidades de não ter sido em vão.

Foto: arquivo pessoal

sábado, 23 de julho de 2011

Se fosse fácil, todos estariam salvos.


“Não falem dessa mulher perto de mim”. É com samba, muito bem à brasileira que me reporto à Amy Winehouse, cuja arte se encerra por aqui.


Por mais mórbido que pareça, eu imaginei, várias vezes, ter que escrever uma postagem sobre a Amy, mais que isso, sobre a falta dela. Provável até que eu fosse antes, mas o “previsível” para tantos se confirmou. E a velocidade da notícia, que anda agarrada à cauda da luz, não só anunciou, como avaliou, como deu como previsão confirmada, julgou e, como não poderia deixar de ser, fez piada.

Ridículo repertório fomos obrigados a assistir. Parece que o universo das drogas é algo externo aqueles que não vivem no show business. Tá ali, na nossa esquina, perto de nós, às vezes dentro de nossa família. Triste daquele que acha que é questão de decisão pessoal, associado à vagabundagem, à safadeza. Difícil é procurar entender o motivo pelo qual entrou e a dificuldade de se livrar. Não vou longe. Pergunto aos que fazem uso de álcool e cigarro, entre os quais me incluo, e que se colocam indeléveis na avaliação dos que utilizam outros tipos de drogas – as consideradas ilícitas – e que comprovadamente matam menos. Do lado de cá, quando escrevo, acompanhada de uma cerveja e um cigarro, admito a minha consciência de que isso mata mais, embora dê menos manchete. E mata – diferente de outros casos – o usuário e a outros, anônimos inocentes, como nos inumeráveis casos de acidentes de trânsito causados por pessoas alcoolizadas.


Não, isso não é apologia ao uso de droga nenhuma. Falo também de um lugar consciente, mas que não sofre tanta avaliação, tanto julgamento nem preconceito. Falo de preconceito porque não vou sofrer nada, caso essa cerveja e esse cigarro que me acompanham acabem e eu caminhe, a menos de cem metros de minha casa para buscar mais, pague com dinheiro ou cartão, não importa. É permitido. O álcool mata, mas é legal e todos os artistas dão o seu aval. E quanto ao cigarro, Quintana, poeticamente,  já advertiu: “Desconfia dos que não fumam: esses não têm vida interior, não tem sentimentos. O cigarro é uma maneira sutil, e disfarçada de suspirar.”


Outro ponto importante é que nos apropriamos de maneira ilegal da vida daqueles aos quais admiramos. Não sabemos lidar com a vida daqueles que elegemos como nossos ídolos, dos quais nos tornamos fãs. Eles disponibilizam para nós a sua arte e tomamos conta do resto. Damos à mídia a audiência necessária para que esta viva de explorar a vida íntima, os escândalos, os problemas, a intimidade de pessoas, que não são mais que “pessoas”, falíveis, com passado, com traumas, com medos, dificuldades, fragilidades, que não nos dizem respeito.


Eu posso dizer que aprendi sobre isso. De deixar de contaminar a minha admiração artística por alguém pelo fato de estar demasiado perto da vida pessoal. Fez mal. E o distanciamento fez bem. O que o artista tem pra me dar está ali: no palco, no disco, no DVD...


Eu escolhi a Amy. Falo isso porque alguns dos nossos “ídolos”, praticamente são impostos. A vida te obriga a conhecer. Isso não os diminui, de jeito nenhum, afinal, temos o direito de perceber e optar por sua presença em nossa playlist obrigatória. Mas a Amy foi garimpada. Surpresa minha, quando a ouvi pela primeira vez e depois de dar uma busca de imagens, não me deparar com uma negra, dada a voz forte, marcante. Era a menina branquela, jovem, de visual excêntrico, de uma ousadia ainda mais encantadora.


Além das canções, como a maioria das pessoas, deixei-me contaminar pelas notícias, pelos escândalos, pela invasão da vida de um ser humano com problemas. E ainda assim, eu conseguia ver uma tristeza, uma falta, uma solidão, algo que, aos meus olhos, mesmo que incógnito, talvez fosse capaz de justificar todo aquele estardalhaço.


Tive a felicidade de assistir a um show de Amy Winehouse. Sequer bebi para ter plenas condições de saber de tudo, de lembrar de tudo. Fiquei tensa ao perceber uma Amy bêbada, que errava letras, que parecia criança no palco e não sabia que milhares ali tinham pago para vê-la. A sensação que eu tinha era que a responsabilidade de tudo aquilo ali estava sobre meus ombros. Não queria ver ninguém decepcionado, porque eu sabia do que ela era capaz e ela era capaz de algo muito bom. Ainda que os jornais do Recife anunciassem a expectativa do público por uma Amy completamente desequilibrada, eu apostava no oposto: queria ver o “show” que eu sabia que ela era capaz de proporcionar.


E entra idas e vindas, erros de letra, tropeços e quedas, ela esteve lá, no show de maior duração na turnê pelo Brasil, ora fazendo cara de feliz, à vontade. Ora de incomodada,  como se aquilo fosse um suplício, mera obrigação, exploração da relação contratual muito acima das suas condições e vontades pessoais. Mas vez por outra, o vozeirão ecoava de tal forma capaz de silenciar qualquer comentário maldoso ou qualquer expectativa de fiasco, frustrando as notícias do dia seguinte.


Se fosse fácil, todos estariam salvos. Essa é a maior verdade. Amy é só um exemplo público de uma mazela mundial que não escolhe classe social, cor, gênero, nem nada.


Recuso-me ao discurso senso-comum de que ela teve o fim procurado. Reivindico aqui a artista de talento esplêndido e que não deve ser comparado a outras divas ou a outros tantos gênios que coincidentemente morreram aos 27 anos. Falo de Amy Winehouse, da contagiante soulmusic tão bem representada por ela, ainda que branca. Falo da mulher que cantou para ouvirmos. E que paralelamente tinha uma vida que não contribuía para que essa beleza se prolongasse. Voz em excesso, talento em excesso, vida em excesso, sabe-se lá, para recompor tantas faltas. 

Pressa de viver, quem sabe. Vontade de ser feliz, eu tenho certeza.


Por Amy, saudade, carinho, respeito. Tudo em excesso.

Tim-tim!

P.S.: Foge à proposta do blog, eu sei. Mas a perda daquilo que a gente gosta também foge a todas as propostas.
Moni.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Metasaudade*



Se saudade é abstrata,
Palavra inexata,
Essa eu desconheço.
Pois a saudade da qual padeço
Tem corpo, tem peso
Tem gosto de sal.
Ora sintagma coeso,
Ora texto de chanchada nacional.
Conjunção dos sentidos, sobrenome
Que a meus predicados consome.
Saudade minha, exclusiva,
E ainda assim, plural.
E a tua saudade imprecisa
Mora em que tempo verbal?
 
 
Imagem retirada daqui.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Clima(x)*



É que o lugar mais certo
O tal ponto de equilíbrio
Eu encontrei
Na extremidade da gangorra
Na possibilidade de aqui e lá estar:
Segura, pés firmes no chão
Altura, desejo de impulsão.
Como se uma força delicada
Me autorizasse o erro
Sem promessas de punição:
- Abra a porta!
Deixa a tua ousadia entrar.
Se não era bem isso,
Foi o que eu quis escutar.
Não sou de temperatura
Que o morno suporta.
Me traio em verões
Pra depois arder no inverno.
É por pura opção:
Me quero assim, desatenta
Me atirando aos riscos
Feitos a lápis,
Me emoldurando em noites
Feitas à mão.


Imagem retirada daqui.

domingo, 15 de maio de 2011

Dos impasses - ou aquilo que se fala e não se faz.


Andei acreditando da possibilidade de me surpreender. Fiquei esperando, me olhei no espelho, fui dormir com a esperança de acordar outra, de olhar pra mim e ver, finalmente, só a mim mesma. Repeti isso por cento e oitenta e quatro vezes. Em vão. E até quando eu vi mais que dois – o que podia, enfim, ser festa – as outras imagens perdiam o foco. Outras vezes se desfizeram mesmo sem que houvesse o meu desejo.

Já provaram que tudo é transitório, tudo tem um ‘até quando’. De outro lado também provam que há exceção para toda regra, o que faz com que para mim, o amanhã não seja de um todo incógnita. Tudo pode ser novo, tudo pode ser diferente, mas há algo que, intransigentemente se fez imutável, é a certeza prática, assim como eu sei que, estando viva, irei respirar.

O que não está mais aqui é o que se faz mais vivo. Até parece que vida, vida mesmo, é aquela que já se foi, que ficou pra trás. Seria algo como construir hoje o que só será vida mais adiante, agravado pelo fato de que a vida vivida hoje é a constante memória dos “tantos ontens” acontecidos. Isso desorganiza minha linha do tempo. Minha cronologia passa a ser impossível de se desenhar de tantas setas de retrocesso que eu insisto em entortá-las a ponto de apontá-las para o futuro. Quem, em sã consciência, ousará contar a minha história?

Falar de eternidade não me sacia. O “pra sempre” sempre adiado, sempre à espera é cansativo, desgastante e não evita as rugas. Pode até estar longe, mas a distância é suplantável. Mas é preciso um horizonte como parâmetro. É amanhã? Daqui a alguns dias? Ano que vem? Futuro entregue ao Deus-dará requer forças de uma juventude que eu não tenho desde que era quase criança. Nunca me importei em estar numa fila de espera onde eu sei que chegará a minha vez. Sempre chegava.

A pergunta não é mais o que virá depois do sono, porque quase nunca durmo. Pode ser antes ou durante. Com ou sem luz. Vários medos se foram com a invernada. Inclusive a escuridão que toma conta do dia.

Mas é quase tudo falácia. Rendo-me à insanidade, à insistência, ao bater-de-pé do meu pensamento. Nem questiono o quão satânico ou angelical isso pode ser. Nunca descobri onde estão as rédeas que o prendem e se elas verdadeiramente existem, agora as ignoro. Minha vontade ganha melodia de mantra e cria uma esfera impenetrável ao meu redor, garantindo o sonho independente do sono.

Não vigio mais minhas palavras. Não as escondo de mim, nem de quem as precisa ouvir. E eu as ouço mais uma vez. Faço-as ouvir mais uma vez. E elas vão ganhando status: de som, de texto, de fotografia, de pedra. É o meu relicário do que não passou porque eu sei que o é. Naquele vai-e-vem do tempo, só uma coisa é certa: o presente. Esse estado indecente do ser-não-sendo. E que eu insisto apostando, querendo ganhar.

Entendo as boas-vontades que emanam de todos os lados. Mas não gosto que me peçam sanidade, mudança de atitude, força, equilíbrio ou determinação. Não quero que me cobrem uma hora exata para que tudo se transforme, para que tudo mude de direção. Não que eu não possa, mas porque quero provar o contrário. Que aquilo que todos chamam de profundidade ainda é, pra mim, epidérmico. E assim eu rasgo todos os tratados, as teorias da duração e as receitas de auto-ajuda. Ninguém me ouviu pedindo ajuda. Até os conselhos, vá lá, por boa educação, por considerar uma palavra aqui outra ali, as quais eu remendo, sem culpa, na ordem que melhor convir. E se há arrogância nisso, perdão, não há pretensão.

Aceito a potência do que sinto. A alta voltagem. Vez por outra saio do lugar, mudo de posição, mas não de intenção. Quem deveria ser poupado dos meus excessos, da sordidez dos meus desejos, das personagens anônimas que me habitam?

Egoísmo puro, verdadeiro e doce. Sem lágrimas represadas. Sem espera indolor. Sem calma. Sem máscaras. Sem tentativas de uma realidade forjada, de uma felicidade desenhada com papel carbono, que não é minha. É minha loucura lícita. E eu não conheço nada mais lúcido.
 
Imagem retirada daqui.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Imagina*



E havia um facho de alegria
A esbarrar no muro da impossibilidade.
Mas por ser abstrata,
Quase sem alarde
Em energia se fazia
Transpondo ao ponto
De virar realidade.


*Peço ao Chico o título emprestado. Ouve aqui!
**Imagem retirada daqui.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Pueril


 
Porque não é preciso dizer tudo
Há olhos que falam mais
Não conhece amor mudo?
Abraços com jeito de cais?
Pois renove o seu dicionário,
O seu linguajar diário
E ignore toda a rima:
Desnude-me nos versos acima.
 
Imagem CC, retirada daqui.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Receita


Ir ao encontro do medo
Ainda que de olhos vendados.
Buscar o calor do abraço,
Relaxar os punhos cerrados.
É que ainda é cedo
E tudo mal começou:
Subir no próximo vagão
Independente de quem o deixou.
É prestar atenção
Reduzir a tensão
Ou não.
Pois por ser começo
Está permitido o avesso.
É que a ousadia
Essa louca, assanhada, arredia
Pode estar escondida no noturno silêncio
Pode estar recolhida no vazio imenso
Da retirada,
Da incursão.
E pelo sim, pelo não,
Desacorrentados daquilo que é fase
Nada mais nos separa
Além de um inexpressivo quase.
* Poema publicado na Revista Cultural Novitas n°9
** Imagem capturada do blog: www.estaluanova.blogspot.com 
*** Enquanto isso, tem promoção no Bordel Bordado. Passa lá!

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Alvo


A palavra certa
Que se faz forte
A palavra inquieta
Que requer sorte
A verdade aberta:
É a palavra-corte.


Imagem capturda do blog: www.blogdamarciamoreira.blogspot.com

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

"Senhoras e senhores: trago boas novas!"

Como eu já previa, 2011 é um ano cheio de boas surpresas, sonhos realizados, investidas ousadas, realizações. Daqui até o final do ano, muita coisa boa vem. Tô dizendo.

Para começar, saiu a III Coletânea Scriptus, da Editora Novitas. São doze autores, estilos diferentes, ideias, percepções pra gente se deixar envolver pela palavra escrita. Melhor ainda é dizer que eu estou entre esses 12! E os demais, você pode conhecer aqui. Eis o tão esperado livro:


A outra ótima notícia é que saiu a 9ª edição da Revista Cultural Novitas, seu segundo número impresso. Contos, Poesias, Fotografia, e uma excelente entrevista com Paulinho Moska fazem parte dessa edição. Eu também estou nela mais uma vez, agora com o poema "Receita".





Também é possível fazer a assinatura anual da Revista Cultural Novitas. Veja aqui como. Quem mora em Fortaleza também poderá encontrá-la em breve na conhecida Banca O Sobral, na rua Major Facundo.

No mais, estamos de vento em popa, Carol Freitas, Letícia Losekann, Marjorie Bier, Talita Prates e eu lá no Bordel Bordado e aguardamos você por lá. Já estamos no twitter também! Ufa!

Novidade é o que não falta. E que venha mais por aí!

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Tô no Bordel!


Por enquanto somos cinco, para receber bem a quem chegar por lá: Carol Freitas, Letícia Losekann, Marjorie Bier, Talita Prates e eu.

Somos "sócias" do Bordel Bordado, mais uma investida literária pra falar de um tudo através das palavras femininas, mas bem longe dos rótulos de fragilidade. 

Vem visitar a gente?

sábado, 8 de janeiro de 2011

Infalível.

 "Mas que asa (...) só ganha quem planta
no escuro do braço, essa semente de
poder voar" (Maria Rezende)

Noite alta, descortinando o outro dia sem pressa. A permitida lentidão do raciocínio, resfriada pela chuva que cai lá fora, ainda é capaz de mastigar cada fatia do dia que se propõe, lentamente, feito conselho de médico. Só assim para absorver tudo o que pode conter de bom, nutrir-se de possibilidades e chegar à constatação: a tendência ao erro. Sim, pode ser um dia perfeito para errar. Se não se tratar de tendência, digamos que seja disposição. Havia mente, corpo e todas as sinapses dispostas ao erro. E no espinhoso lugar das conseqüências, vácuo.

Não era um pensamento que arquitetava erros clássicos, estáticos. Não era o dia de buscar no desgastado “pra sempre” um lugar almejado, intocável, emoldurável, onde o sol sempre brilha, a lua é sempre de amantes e se chove, é prata. Seria clichê, até pueril gastar o desejável erro crendo num futuro de se alcançar e parar, puxar o freio-de-mão da vida e sentar no trono da contemplação com a sensação de fim de estrada. Treme mais do que faz tremer. Erro tolo. De uma obviedade em que lucro cederia lugar ao luto. Previsível resultado frio para um método morno.

Era uma vontade de erro de alta temperatura. Erro de iminência. Inevitável. Um erro sem depois, sem amanhã. Também não guardava imagem maquiavélica de tridente na mão. Um erro e pronto, daqueles que, quando criança, um dedo em riste e uma cara amarrada dariam o indicativo de que jamais deveria ser repetido. Mas nesse caso, fale baixo, por favor, é erro repetido sim, mas com aquela tal aresta clássica aparada. É erro adulto. É erro para maiores.

E para os maiores, grandes erros. Tão grandes que jamais ousaria repeti-los amanhã. É erro pra hoje, sabe? É erro inconseqüente, daqueles que, quando adolescente, um mês sem mesada daria o indicativo de que jamais deveria ser repetido. Mas nesse caso, por favor, não conte a ninguém, porque é erro repetido sim, mas com aquelas arestas infantis aparadas, não haveria choro de perda, pelo simples fato de que não houve busca cultivada, então nada se encontrou. É erro maduro.

É erro tão maduro que precisa ser saboreado já. Encontra-se na sua maior doçura, na estação certa. É hora de comer e tê-lo, de cometê-lo, usando as mãos, a boca, deixando escorrer pelos braços, sem se importar se faria sujeira, se mancharia. Aliás, as roupas seriam as únicas testemunhas, capazes de guardar quaisquer marcas. E nada além, nenhuma memória suficientemente forte a ponto de resistir a um pouco de água e sabão. No dia seguinte haveria maquiagem bem feita e se os olhos não estivessem espertos, acredite, seria apenas sono.

Um erro sem medo, consciente, único, objetivo, de tal forma a parecer frio e óbvio. Um erro que cede, apenas: ao tempo, à claridade e à confirmação de que a faca perdeu a lâmina. A forma pode ainda ameaçar. Mas serve apenas para isso: para que não se perca a sensação humana, a resposta endócrina ao ato de brincar com fogo.

Não restará cheiro, muito menos saudade. Não se dispersará em curvas, em planos, em suspiros ou desejos póstumos. Precisa manter a magnitude. É relâmpago. É explosão. Não carrega punição como acessório, é erro só e pronto. É a única coisa ímpar nisso tudo. A ação, a vontade, se unem pelo velho e único caminho retilíneo que liga dois pontos. Dois pontos certos a desejar o erro.

Desconheço coisa mais próxima de um grande acerto que um erro bem cometido. 
Eis o plano.

Imagem capturada do site: www.cheffrode.net

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Da (inevitável) ordem natural das coisas


                                                                             
Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer.
(Chico Buarque)

Passado o tempo necessário
É dada a hora de recomeçar.
Era o que eu bem já sabia
Mas o tal do imaginário
Relutante a negar
Na contramão, antilibertário,
Mesmo com o mundo a girar
Na mesma toada insistia
No lugar de outras notas cantar.

Hoje o peito anistiado
De fôlego inteiro, retomado
E a velha vontade de repetir:
Para chegar é preciso ir.

Não é que me falte medo
Mas é que me sobra vontade
De repente, acordar mais cedo
Sentir a inédita verdade:
É que abismos, meu caro,
Foram feitos pra saltar
E de súbito me jogo
É a pressa de sentir logo
O gosto que me é tão raro:
O prazer de experimentar.

A busca: o que é intenso
Quero tudo de uma vez
Descobri que perder o senso
É minha maior lucidez.

Imagem capturada do blog klaud-mar.blogspot.com

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

A cada um, a cada uma


O meu carinho mais especial.
Obrigada pela companhia, pela atenção,
Pelo tempo dedicado,
Pelo olhar apressado,
Pelo simples estar!

Beijos e desejos do melhor ano de nossas vidas... por enquanto!

Moni.

Imagem: CC Creative Commons

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Enquanto isso...


...a posia se faz apressada, lá no Curta-Metragem.
Até lá.

Para ler "Altruísta", clique aqui.

Imagem: arquivo pessoal.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Revista Cultural Novitas N° 8

Olá, meu povo!

Logo abaixo vocês podem conferir a 8ª edição da Revista Cultural Novitas, onde mais uma vez tenho a alegria de compor o grupo de autores, desta vez com o conto "O Nado e o Nada".

A partir deste número a Revista terá também a sua versão impressa. Você pode adquirir gratuitamente a n° 8 e fazer a assinatura das próximas através do email contato@editoranovitas.com.br



É possível fazer o dowload deste e dos números anteriores direto no site da Editora. Basta clicar aqui.
E como 2011 será um ano cheio de agradáveis surpresas, a Editora Novitas estará lançando a coletânea "Palavração", da qual eu também faço parte e que você pode conhecer os autores clicando aqui.

Mais uma vez o meu agradecimento a Letícia Losekann Coelho e David Nóbrega pelo espaço e oportunidade.
Espero que gostem!

Abraços e ótimo fim de semana!

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

#PazNoRio


                                                                        "Pede perdão pela duração dessa temporada"
                                                                                            (Chico Buarque)

“Polícia e milícia”
Pra rima pobre,
Pergunta nobre:
Quem vai prender o traficante?
Quem vai julgar o comandante?

Se a intenção é de ser crítico
É preciso admitir
Que o verdadeiro vício
Desde o início
É o político.
Quem é que pede pra sair?

Imagem: UOL (25/11/2010)