Páginas

quinta-feira, 30 de abril de 2009

O que espanta é o encanto.

As balas ficaram perdidas em algum texto sensacionalista de jornal, ou presas no egoísmo consciente e deliberado de quem não quer repartir o belo, porque nos seus interesses não cabem tantas pátrias.

Miséria? Tem aqui, ali e acolá. Lá também tem.

Tem a guerra diária dos que lutam pra sobreviver, tem as mazelas cotidianas dos que são vítima de um sistema excludente e autoritário, que possibilita Nike pra uns e calos nos pés para outros, que precisa de sangue derramado para regar sua sustentação. Alicerces de medo, terror, que cultivam novos Hitler em suas tropas de elite.

Tem rios de dinheiro que lavam a droga do morro, que desce para as ricas casas de quem se veste do vício de griffes e faz cara feia pra Baixada.

Julgue a importância do baile funk, da gafieira e do balé no Teatro Municipal. Você tem fome de quê?

Mas tem gente, tem muita gente. Gente que se apresenta orgulhoso filho da terra, criatura humilde, a vender um souvenir, dizendo que cuide do relógio, mas não perca tanto tempo, pois está no lugar mais lindo do mundo.

Tem gente ícone. Desce no trem a negra de sorriso largo, uma baiana-carioca-desde-pequena, mostrando para a família do Nordeste as graças da sua cidade, ainda que de céu nublado. Enterrara ontem o marido, mas certa de que nada havia a fazer e de que a vida tinha que continuar, fazia amizades no vagão, encantava a quem se dispusesse a ouvir sua narrativa que mais parecia um tratado de vida. Dela surgia o convite para o retorno no acolhimento de sua casa. Amizade de infância construída nos quinze minutos de trilhos.

Há uma pobreza, mas que não subtrai a criticidade, que sabe apontar o sobrenome global como responsável pela contra-propaganda, pelo uso dirigido aos seus interesses, que escreve nos muros o que quer, frases de efeito, gritos de manifesto, uivos de beleza, palavras de gentileza...

Sobe e desce o morro, que se intitula comunidade. Favela é pejorativo. Entorta o nariz da burguesia. Comunidade orgulha, dá força e alimenta as armas que realmente fazem sentido. O estampido trocado pelo baticum do carnaval, olhos cheios d'água a contemplar o infindo mar, o samba-gentil feito roda no calçadão . E lá em cima, quase sempre de olhos atentos, o Cristo pra abençoar...

O Rio de Janeiro continua lindo...

Imagem - arquivo pessoal.

2 comentários:

vega becker disse...

o rio e seus signos: inseparáveis.
e a beleza dele deva a esse total contraste urbano.

.

tá repleto de assuntos o teu blog.
to amando...

;* beijos

Mara faturi disse...

Entre a beleza e a crueza das coisas, apenas alguns matizes...mudam os mares, os ares, mas a humanidade é sempre a mesma...
bjos linda,
saudades de sua escrita sempre bela e pertinente *)*)