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sábado, 16 de janeiro de 2010

Quanto tempo faz?


Peço licença, mais uma vez pra me servir do mesmo mote. Eu sei que o mundo inspira: o sol nasce a cada dia mais espetacular, há noites lindas de lua, a terra treme mundo afora e a poesia – ainda que abstrata – pode se fazer ungüento concreto pra quem sabe um dia.

Mas “me perdoe se eu insisto nesse tema, mas não sei fazer poema que não use o coração como expressão”. Sim, eu abusei. Abusei da entrega, abusei do risco, do salto, da falta de medo, do frio na barriga, dos sorrisos largos. Antes fosse como quando se abusa do uísque, garantindo a perda de memória amanhã. Mas não. Está tudo aqui e minha lembrança fez questão de autenticar.

Quanto tempo faz? Hoje faz tempo. Hoje faz o tempo diferente daquele. Daquele que não houve o medo de que chegasse alguém pra flagrar o desejo incontido num meio de tarde. Entre o vai-e-vem de gente, um beijo seguido do outro, cada vez mais ardente, apenas ensaio da primavera que se anunciava. Mas toda estação tem seu fim. Estação é o fim. E também o começo.

Houve riso, houve flores, houve troca de amores. Houve trilha composta, escolhida meticulosamente para cada passo dado, para cada olhar censurado, para cada noite acordada, para cada manhã, de bobeira, a risada.

Mas é hora de outra temporada. Há cobrança, de todos os lados de um outro tema, de um outro motivo. E me repreendam se eu teimar. Eu prometo mudar, afinal a porta está aberta e só me resta cruzá-la. E é esse o caminho. Eu juro. Menos para aqueles que sabem que eu não sei mentir.

Ficou muita coisa guardada. Falas, gestos, textos. E até silêncio. É a pura lembrança presente. A amarga saudade, insistente. É a prova daquilo que nos faz diferentes.

Quanto tempo faz?


Ao inevitável som de...

Bebel, Dé e Cazuza

 
Foto: arquivo pessoal

11 comentários:

J. Sollo disse...

"Não sei fazer poema que não use o coração como expressão" Oi Moni passei pra te dar um beijo, e dizer que achei linda esse poema e destaco minha frase preferida. Quando acaba o amor resta-nos dar destino as coisas que ficaram: As músicas, as lembranças, os presentes, lidar com o vazio e acalentar a esperança de recomeçar. Adoro seu jeito franco, cru de escrever sobre o cotidiano.


Beijo, continue me visitando.

Jorge

Tiago Moralles disse...

Deve fazer muito tempo.
Tira o pó.
Sacode as lembranças.
E coloca a saudade no sol.

NDORETTO disse...

Moni!

por instantes,deixei a rapidez...para ler devagar coisas lindas como essa :

"Houve riso, houve flores, houve troca de amores. Houve trilha composta, escolhida meticulosamente para cada passo dado, para cada olhar censurado, para cada noite acordada, para cada manhã, de bobeira, a risada."___________

Adorei!

bjs
ND

Renata de Aragão Lopes disse...

Impossível repreendê-la...
Enquanto
não se esgotam as sílabas,
o tema
deve persistir!

Só precisa
mudar o mote, Moni,
se isso LHE incomodar.
E não é o que me parece!

Você tem domínio
sobre a fala
e sobre o que fala.
Sabe
que "estação é o fim",
que "é hora de outra temporada",
que "a porta está aberta"
e só lhe falta cruzá-la.

Estou certa
de que o fará
no momento devido,
em que se sentir
realmente pronta
para a mudança.

Até lá,
ficarei ao aguardo
dos lindos textos
que produzirá
ao longo desta trajetória! : )

Um grande abraço, querida!

Elzenir disse...

Lindo texto. Palavras que vêm de dentro, sentimento mais puro e bonito. Também sinto que tenho que virar uma página, mas sei que é difícil.Peço forças a Deus. Bjs

Elcio disse...

É..."voce abusou..." rss
Gostei do jeito leve de brincar c palavras, musica, com o tempo enfim.

Parabéns pelo feeling.

É isso aí.

Bjs

Talita Prates disse...

Li e reli com gosto (amargo).
É interessante
como podemos sentir
o amargo alheio
na própria boca.

um texto visceral, Moni.

Quanto à repetição do mote:
à vontade.
Tem mote que é motor.

bjo, querida.
e paz.
e sorte daí.

A Moni. disse...

É assim, Jorge... A hora de recomeçar um novo cotidiano, pra gente expor, com franqueza ou em moldura fina... Nossos corações saberão a forma...


Tiago, "lá vem o sol, tchuru-tchuru...". Tô "esperando na janela, ai ai"...rs


Neusa, que honra ter teu tempo, sempre rápido, assim, dedicado ao que há por aqui!


Renata e Talita, obrigada pela partilha de sentimento, por sentir o momento e perceber do que se faz o motor dessa trajetória... Lindas, vocês!


Vamos transformando em texto, em vida vivida, Elzenir! Já já será "bom olhar pra trás"


Afinal, Élcio, abusar não é de um todo ruim! rsrs

Beijos a tod@s!

Fabio Rocha disse...

Belos tempos, belos dias...

Jackie Kauffman Florianopolis-SC disse...

Que belo.A porta se mostra. Não dá para parar, é realmente preciso cruza-la. Bj

Sylvia Araujo disse...

Pras coisas guardadas uma gaveta da saudade - saudade boa, doce-suspiro. O que não vale é tirar do quartinho dos fundos uma dor que amarga. Porque essa não lembra - dói. E o que dói, nunca-nunca afaga.
Deixa o tempo pra lá e vai...

A-do-rei se ritmo! Volto, volto e volto!