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sexta-feira, 23 de maio de 2008

Olhei atentamente para os meus sinais da boca, sedenta de um beijo que um dia seria roubado, adoçado com mel, e que mais tarde viraria até canção. Lamentei as coisas que essa mesma boca um dia se negou a dizer e que hoje insiste em falar sem ser ouvida.

Foi uma longa viagem, um tempo dentro de mim mesma que embora não tendo procurado outras paisagens, outros caminhos, foi capaz de redescobrir as próprias experiências, alguns valores reais e o mais importante, projetar para os verdadeiros desejos.

Descobri. Senti. O corpo, a cabeça, o coração, falaram juntos, uníssonos e imperativos: Vá à luta. E fui. Sem armadura, sem escudo, mas com o corpo e a alma cobertos de vontade, abstrata, invisível, mas demonstrada, proferida a cada possibilidade.

Mudei trajetos, fiz e refiz planos, encurtei distâncias. Cerquei, criei uma redoma de cuidado, fiz um altar. Enfeitei com flores e canções. Intuí desejos, procurei mágicas capazes de arrancar sorrisos e me dei, sem embrulho nem laço de fita. Me dei nua, crua e inteira, irrestrita.

Mas a festa foi perdendo o sentido à medida que eu percebia que só eu gostava da música, que só a mim ela fazia dançar. Aos poucos, até as luzes apagaram. Fui colecionando flores murchas, declarações não recíprocas, silêncios, nãos, chamadas não atendidas, ausências e verdades que não precisam ser ditas.

Me dei conta de que eu estava só. Que quando pensei que havia acordado, era quando, de fato, eu tinha começado a sonhar. E já disseram que sonho que se sonha só, não passa disso. Entendi os porquês. Eu não podia esperar respostas de um outro lado que não existia. Eu não podia visualizar um futuro leve, quando o peso de um passado fala mais alto, sufoca, turva a visão de tal forma que a nada adiante se pode dar crédito.

Escolha minha. Desde sempre. Forte cobradora e dura pagadora. Mas que paga coisas caras.

Vou vivendo com o troco.

2 comentários:

Verena... disse...

Moça bonita... domadora de palavras... Sempre a perfeição...

Beijos

Anônimo disse...

Muito bom!!!
Sentido e verdadeiro...Lá de dentro...
A história do "Cristal quebrado" fica parecendo "coisa de criança", depois disso tudo...

-E como foi?
-Sei não...Só sei que foi assim!