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segunda-feira, 23 de agosto de 2010

(Im) Previsto

 
Na noite em que ela julgava que fosse a mais igual, com um céu de estrelas cartograficamente organizadas, tomou-a, de súbito, a possibilidade de desmontar aquele todo já friamente planejado. Daquelas estrelas, a mais bonita e iluminada, logo mais iria, de certo, parar bem em cima dela, dando um brilho de nobreza aos sonhos que ela mais gostava: os que vivia acordada.

Sem nada concreto, sem qualquer palavra que acenasse com uma possibilidade, que fosse, vestiu-se com um sorriso que era capaz de mantê-lo até sob a água salgada do mar. Rapidamente colocou seu mundo numa ordem apresentável. Empurrou alguns problemas para debaixo do tapete, ateou fogo nos restos da noite passada e borrifou cheiro fresco de flor sobre a insistente fumaça densa de solidão que lhe fazia companhia.

Ela se enfeitou, perfumou-se, pôs flor no cabelo e um par de brilhantes no olhar. Dali em diante era só aceitar a companhia redundante do relógio, seu rodear disciplinado e repetitivo de ponteiros que não descansa, não para pra respirar, não interage e é de tal forma frio e desumano, que se quer lhe pedia calma ou desejava sorte.
 
E era isso. Estava desde sempre entregue à sorte, pois nada, absolutamente nada lhe dava garantia para a construção dessa felicidade antecipada. Nenhuma caução, nenhum seguro, nada. Ninguém a autorizou o sorriso, ninguém a presenteou com a esperança dentro de sua caixa bordada em cores.

E assim experimentara todas as posições de espera: gastando o piso do corredor, visitando cada quadrante da cama, as diversas alturas dos batentes da escada, em cada uma das cadeiras, sobre as pedras... A cada mudança, não lhe custava muito ficar na ponta dos pés e lançar um olhar esperançoso pela janela. Mas lá fora a noite caminhava igual e nenhuma estrela mostrava pretensão de descer nem dava sinais de que viesse clarear seus sonhos.
 
Depois de um tempo sem fim, a última posição – não escolhida, mas a única a qual reagira: o corpo reto e ímpar sobre as cobertas pares. As luzes aos poucos minguando, o cheiro de flor se esvaindo, o sorriso fechando suas portas e os olhos cerrando em escuridão. Findou-se o perfume, apagou-se o brilho e da secura daquela cena, uma única lágrima, autônoma e implacável, ousou regar o travesseiro numa tentativa inútil de fazer brotar ali as lembranças do que já foi suor, de unhas nele cravadas, de sons que nele foram contidos, de suspiros em exaustão. Mas era tudo árido e estéril, incapaz de fazer nascer qualquer coisa. Havia só um vazio de pensamento que preencheu a madrugada com um sono oco.
 
Ao acordar, o sol já alto demonstrava que tudo continuava igual. Tudo exatamente igual ao momento em que ela, por vontade, por necessidade própria, decidira que estava no comando das escolhas e entregou-se à pintura de seu painel de ilusão.

Qual nada. Ao redor os lençóis quase intactos e o livro entreaberto com o último trecho lido grifado com lápis verde-escuro: (...) É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. (...)*

Talvez uma madrugada vazia em lugar à festa planejada tenha agregado importantes lições. Havia tristeza naquela manhã, mas havia também consolo. Mais uma vez não sabia de onde vinha mais esse sentimento, mas era coisa sua acreditar no que sentia e conceder vida a isso tudo. E dessa vez sentia tanto, tão intensa e profundamente, que era capaz de apostar que em breve estaria cara a cara – e de pé - com um velho desconhecido: o amor.
 
* Trecho de Clarice Lispector em Felicidade Clandestina
Imagem capturada do site www.carlossimo.arteblog.com.br

21 comentários:

Francisco de Sousa Vieira Filho disse...

Diz.aço.cego... ;)

Gisa Carvalho disse...

Ai, eu ainda não sei ceder.. =***

Adolfo Payés disse...

Un aleteo vuelo por tu espacio es maravilloso..

Que tengas un lindo día..

Un abrazo
Saludos fraternos....

Rafa disse...

que lindo...!

o modo como costurou as horas com as linhas do lençóis e os fios das estrelas dão um Quê 'divino maravilhoso'! =)

*sem contar o trecho de Clarice (L), né? *_*

'dorei!

beijão

Aninha Kita disse...

Uma lágrima escorreu também neste rosto leitor.
Lindo, Moni! Lindo e doce demais! *-*

Beijos!
Ana

Renata de Aragão Lopes disse...

Clarice a lhe dar
um sopro de esperança!

Lindíssimo, Moni!
Seu texto flui,
que flui
e flui...

Um beijo,
Doce de Lira

Myrela disse...

Ái que lindo isso!
Essa esperança te faz muito bem, Bond's!
E a desilusão e o desamor fazem muito bem a esse blog...
Esse certamente deve está reservado para edição né?!

Letícia Losekann Coelho disse...

Muito bem escrito... Um conto com ritmo bem como gosto de ler ;) Dá para imaginar todas as cenas e toda a tristeza da espera do que já se foi.
O trecho de Clarice fechou com chave de ouro.
Gosto muito da maneira que tu escreve!
Beijos

Letícia Losekann Coelho disse...

Gostei muito da maneira que tu conduziu o conto... Tem um ritmo gostos de ler ;)
A espera do que já se foi, a busca pelo velho ( novo), a lágrima que rola onde existia amor!
Muito bem escrito, menina!
Beijos

Rafael disse...

Muito bonito, Moni!
Bjs

NDORETTO disse...

Uma delícia de texto...ah, sou sua fã!!!!

Beijos
Neusa

Paulo Rogério disse...

Parece-me complementar o texto anterior (Dos opostos). Todas as divagações aqui encontram um final possível, concreto. Num crescendo. Uma esperança, enfim.
Beijo!

Í.ta** disse...

e aí, será que estaria preparada?

eu já fui, fui, fui... looonge com essa personagem :)

ainda mais rodeado assim pro trecho de clarice.

beijo grande, monii!

Felipe Carriço disse...

No final das contas ela encontrou melhor companhia do que um amor de fora: o amor de dentro.

marjoriebier disse...

Ai, Moni... assim você me deixa a alma comovida.

Mary Pereira disse...

Lindo, Moni. Lindo, lindo!

Parece-me que o amor é, de fato, um desconhecido. Desconhecido para permitir surpresas e sensações-sem-nome. E creio ainda, que tornando-se conhecido, descobre-se não ser amor.
Lancemo-nos então aos (des)conhecidos (des)sabores da vida!

Um beijo, querida!

Rafaela Figueiredo disse...

ei, quero mais [coisa boa assim]! u_u
rs

beijo
bom findi

Rafaela Figueiredo disse...

ei, quero mais [coisa boa assim]! u_u

rs

beijão

Rafaela Figueiredo disse...

ok, achei q a msg não tinha ido, mas foi! o/
hahaha

[poia mode on]

Guilherme Sakuma disse...

clap, clap, clap... bravo!

Vitor Samuel disse...

Busca, esperanças, lembranças, sonhos... vivendo ilusão? Passado? Futuro? O amor acaba sempre tirando a gente do que mais importa, o presente! Acho interessante como as pessoas dão tanto valor ao que aconteceu ou ao que poderia ter sido ou ao que será, e esquecem que o melhor de tudo está no que já se tem.