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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

#PazNoRio


                                                                        "Pede perdão pela duração dessa temporada"
                                                                                            (Chico Buarque)

“Polícia e milícia”
Pra rima pobre,
Pergunta nobre:
Quem vai prender o traficante?
Quem vai julgar o comandante?

Se a intenção é de ser crítico
É preciso admitir
Que o verdadeiro vício
Desde o início
É o político.
Quem é que pede pra sair?

Imagem: UOL (25/11/2010)
 

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Dos (des)Encontros


Do que pude sentir
Já te sabia.
Não te encontrei,
Nunca te vi.
Mas outra forma não havia
Amor acontece à revelia
Inútil repreender.
E ele veio:
Fez sentir
Inteira ao meio
Sem sequer te conhecer.


Para ouvir João e Maria, aqui.
Imagem capturada do Arouca's blog.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Alquimista


A falta mais exata é daquele cheiro que eu não lembro. Talvez por ter passado de tal forma rápida e lancinante a ponto de não me deixar esquecer o resto, que ficou muito bem guardado.

Ouvi: - Não há fórmula! E esbravejo não ter visto se constatar o infalível método, já tão conhecido: de súbito, cretino, a me levar pela mão, dizer o mesmo repertório canalha, fazer um comentário dispensável, repetir as cenas batidas, ser previsível. Seria muito mais fácil. Junto com o sol, viria a decepção, amenizada pelo fato de ser esperada e a minha constatação científica de que  é sempre assim e sobre o meu salto, protegida pelo peito estufado da experiência, destilar, em metáforas, o veneno de mais um mito quebrado. Arranharia o reverenciado quadro. Destituiria o festejado rei.

Mas não.

Ouvi: - Não há fórmula. E ali estava a sabedoria. Era frase hipnótica que mandou às favas minhas infalíveis receitas, meus escudos de proteção que mantiveram, quase sempre, pelo menos um pé bem firme no chão.

Olhos de serpente e coração de pedra. E na boca, além da maciez obscena, a frase cimentada a me imobilizar:

- Não há fórmula.

E não há. Lembro que o cinza da noite chegava até o chão do preto asfalto. Lembro que não havia mais ninguém. Lembro de duas mãos a segurar meu rosto garantindo que suas palavras-flecha entrariam por todos os buracos da minha cabeça oca, me fazendo crer que mais tarde, pouco tempo depois dali, seria amanhã e que dias adiante, haveria um dia de festa. Só do cheiro não consigo lembrar.

E eu tinha pressa. Queria o amanhã mais cedo. Queria o dia de festa que viria depois. E era tudo tão quase-certo, que mal podia esperar acordar. Aflita, escolhi ver o dia chegar. Mas o amanhecer, o entardecer e os dias seguintes provaram que o mais importante fora dito no início, feito cartão-de-visita e com isso, absolveu-se de todas as culpas:

- Não há fórmula.

Imagem: CC (Creative Commons)

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Palavra-festa


Infalível palavra, encontra sempre a fresta
Seja densa, rarefeita
Sutil ou intensa
Vestida de poesia é festa
Traje de noite ou de dia, enfeita.
Seja palavra - é o que importa
Jamais inútil, jamais em vão
E que haja sempre intenção
Até na palavra morta.

Este blog que veio substituir a antiga "Caixa de Pandora", completa hoje 3 anos, com quase 15 mil visitas, com 140 amigos e amigas que  acompanham as verdades vividas ou inventadas que flutuam por aqui, com infinitos comentários, complementos necessários, quem mantém a palavra viva.
Viva! Viva a palavra, viva a escrita, viva a poesia!
Meus agradecimentos sem-tamanho aos que repousam por aqui seus olhares, que dedicam seu tempo à leitura, que dão um retorno ou não, simplesmente passam. Aos que aqui, feito espelho, buscam o seu reflexo. Também pode acontecer. Há um pedaço significativo - e indispensável - de cada um de vocês por neste espaço.
É tudo construção. E nada faço só. Sem vocês eu não seria.
Um grande abraço.

Sugestão para ouvir, aqui.

Imagem: CC - Creative Commons

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Solo de Baixo



(...) Brinque com meu fogo, venha se queimar
Faça como eu digo, faça como eu faço
 Aja duas vezes antes de pensar(...)
Chico Buarque


Mais baixo.
Sussurre.
Balbucie de tal forma
Que eu não ouça mais a diferença
Entre lábio, orelha e língua.
Que eu ignore a distância
Entre seios mãos e coxas.

Mais baixo...

Vê a malemolência suave dos dedos sobre as cordas.
Vê e transporta:
Dedos – notas
Cordas – corpo.
Descobre o melhor caminho,
Acorde.
Levante.
E (semi) breve.
Solfeje os desejos
Em arranjos de volúpia.
Des – componha-me.

Toque-me:

Mais baixo.
Mais baixo.
Mais baixo...


Um Bom Conselho para ouvir.
Imagem capturada do site: http://flaviodogd.blogspot.com/ 

terça-feira, 12 de outubro de 2010

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Perde o salto e salta

                                                                         Imagem: Monalisa de Leonardo da Vinci


Terei, só eu percebido
Que o ontem é lugar esquecido?
E num instante, refaço: ontem, mesmo, é aqui do meu lado
Mas seu nome,
Esse sim, bem mais longe, é passado
E até te cedo a tardia escolha:
Enterrado ou cremado
Ou mais simples, bem mais eficaz:
Calado.

Resta pouco, pois, a dizer
Quanto vale o teu esquecer?
Pagaria caro, sem sentir prejuízo
Pra não ter o meu nome no desafino preciso
Da acidez da tua boca de fel
Que morde e estraçalha a verdade
Deixa o gosto da maldade
E encobre o mundo com o véu
Entre as letras lambidas que nomeiam tua vaidade.

Se já não te enxergas no espelho
Te afogas no raso, de razão, nem um triz,
Meu último ato cristão – um conselho
Escolhas, por fim, ser feliz.
Pois se te fazes tempestade,
Dia e noite a insistir
Desculpe, a minha felicidade,
Sequer lembra do teu existir.

* Sugestão para ouvir, aqui.
** Nem toda poesia é autobiografia.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Revista Cultural Novitas Nº 7

Mais uma vez tenho a honra de estar na revista eletrônica da Editora Novitas.
Agora você pode acessar o site da editora para fazer o download ou usar o leitor eletrônico abaixo.
Obrigada mais uma vez, Letícia Losekann e David Nóbrega, pela oportunidade.

domingo, 19 de setembro de 2010

O beijo e seu endereço *


                                                                                   Foto: " O beijo" de Rubens Gerchman 


Li, em algum lugar do passado, um texto que falava sobre o tal “beijo no coração” e a cadeia de possibilidades, de sentimentos românticos que poderiam ser desencadeados pelo recebimento do próprio. Um beijo no coração recebido e estava posto o enigma: perceber a entonação, identificar o olhar, ler o movimento labial, tudo para encontrar o real paradeiro que o tal beijo queria tomar. Não lembro bem do desenrolar do texto, mas lembro que tinha acordo em achar um carinho meio esquisito para determinadas pretensões.

Já ganhei vários desses. Embrulhados com laço de fita e brilho no olhar como brinde. Confesso que não gostei, quis devolvê-lo prontamente e falei isso ao doador do beijo. Não, não foi rejeição minha, tampouco mau-agradecimento. É provável que eu não estivesse carente de beijo no coração, pelo menos naquele momento.

É uma pena, mas não dá pra sentir qualquer resposta do corpo a um beijo no coração. Vai ver que meu desejo tinha um endereço mais visível e mais fisicamente viável e sensível. Sem falar na perda criminosa de uma oportunidade de tocar o corpo, sentir o gosto, compartilhar da respiração, tudo sem deixar qualquer vestígio.

Eu não consigo mandar beijo no coração de ninguém. No da minha mãe, talvez. Sinto o beijo no coração como um ato que possui um carinho muito específico. Aquele carinho que ergue um muro largo, alto e resistente entre a boca que beija e o órgão que recebe. Nesse caso, o beijo me parece ficar na altura do peito, e do peito mesmo, não do seio. Quem dera! Será que é porque dizem que coração dos outros é terra que ninguém anda? Obviamente, se não se anda, muito menos se beija.

Estou certa de que no momento em que me dedicam “um beijo no coração”, essas palavras vieram acolchoadas de um carinho gigantesco. Mas no fundo, ou nem tão fundo assim, ainda que meio inconsciente, a intenção é outra. É como mandar um “beijo no juízo” Já ouviu esse? Eu já. Pra mim não passa de um recado, do tipo “cuide-se, tome juízo!”

O beijo no coração também tem entrelinhas, carrega seu recado implícito, ainda que pra mim, que o conheço bem, escancarado. Mandar esse tipo de beijo é pra reconfortar. Algo do tipo: um beijo no coração pra você que tem o seu tão inquieto, agoniado. Esse beijo no coração traz no bolso um elixir de paz, alento. E conforme-se só com ele, viu, baby? E assim, delicadamente, com um beijo resolve-se um mistério, esfria-se a caldeira do desejo, apaga-se o neon da expectativa. Beijo no coração é praticamente um ansiolítico!

Só se for pra você. Beijo no coração me deixa nervosa, não me aquieta a alma, não descompassa meu ritmo cardíaco, não causa nenhum suspiro, muito menos tira do casulo as borboletas que tanto querem bater asas no estômago...

Nunca vi carinho tão fisiologicamente comentado. Mas é isso mesmo. Quer me tocar o coração? Beije-me a boca, o olho, a orelha, as costas, a barriga, o pé. Descubra meu ombro para beijar. A distância, eu garanto, é muito menor, e o resultado, garantidamente eficaz.


* reedição de um texto já publicado aqui. é que esse beijo continua me incomodando. rs.

domingo, 12 de setembro de 2010

Oração da Rua*


Que esta rua seja minha
Sua, dela, de quem queira
Fins de tarde, noite inteira
E a liberdade como vizinha.

Que seja nosso o banco da praça
De direito, não de graça
E que venha o dia
Que se faça na rua alegria
Seja a dele, ou a do 'maluco-beleza'
Pois são tantos tons a compor Fortaleza.

É a minha cidade-aquarela
E bela - por querer sujeito
Quem só conheceu esmola e preconceito.

Do "Passeio Público": ver o mar.
No "Coração de Jesus": repousar.
Cantando notas de improviso
Sonhando um futuro impreciso
Mas que o batuque, o sorriso não nega:
Que jamais seja a cidade cega
A não reconhecer passarinho
Aquele a quem só falta o ninho.

*Poema classificado em 1°lugar no Concurso de Poesia Crítica  da Faculdade Cearense em agosto de 2010

Imagem capturada do blog: www.somosandando.worpress.com

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

(Im) Previsto

 
Na noite em que ela julgava que fosse a mais igual, com um céu de estrelas cartograficamente organizadas, tomou-a, de súbito, a possibilidade de desmontar aquele todo já friamente planejado. Daquelas estrelas, a mais bonita e iluminada, logo mais iria, de certo, parar bem em cima dela, dando um brilho de nobreza aos sonhos que ela mais gostava: os que vivia acordada.

Sem nada concreto, sem qualquer palavra que acenasse com uma possibilidade, que fosse, vestiu-se com um sorriso que era capaz de mantê-lo até sob a água salgada do mar. Rapidamente colocou seu mundo numa ordem apresentável. Empurrou alguns problemas para debaixo do tapete, ateou fogo nos restos da noite passada e borrifou cheiro fresco de flor sobre a insistente fumaça densa de solidão que lhe fazia companhia.

Ela se enfeitou, perfumou-se, pôs flor no cabelo e um par de brilhantes no olhar. Dali em diante era só aceitar a companhia redundante do relógio, seu rodear disciplinado e repetitivo de ponteiros que não descansa, não para pra respirar, não interage e é de tal forma frio e desumano, que se quer lhe pedia calma ou desejava sorte.
 
E era isso. Estava desde sempre entregue à sorte, pois nada, absolutamente nada lhe dava garantia para a construção dessa felicidade antecipada. Nenhuma caução, nenhum seguro, nada. Ninguém a autorizou o sorriso, ninguém a presenteou com a esperança dentro de sua caixa bordada em cores.

E assim experimentara todas as posições de espera: gastando o piso do corredor, visitando cada quadrante da cama, as diversas alturas dos batentes da escada, em cada uma das cadeiras, sobre as pedras... A cada mudança, não lhe custava muito ficar na ponta dos pés e lançar um olhar esperançoso pela janela. Mas lá fora a noite caminhava igual e nenhuma estrela mostrava pretensão de descer nem dava sinais de que viesse clarear seus sonhos.
 
Depois de um tempo sem fim, a última posição – não escolhida, mas a única a qual reagira: o corpo reto e ímpar sobre as cobertas pares. As luzes aos poucos minguando, o cheiro de flor se esvaindo, o sorriso fechando suas portas e os olhos cerrando em escuridão. Findou-se o perfume, apagou-se o brilho e da secura daquela cena, uma única lágrima, autônoma e implacável, ousou regar o travesseiro numa tentativa inútil de fazer brotar ali as lembranças do que já foi suor, de unhas nele cravadas, de sons que nele foram contidos, de suspiros em exaustão. Mas era tudo árido e estéril, incapaz de fazer nascer qualquer coisa. Havia só um vazio de pensamento que preencheu a madrugada com um sono oco.
 
Ao acordar, o sol já alto demonstrava que tudo continuava igual. Tudo exatamente igual ao momento em que ela, por vontade, por necessidade própria, decidira que estava no comando das escolhas e entregou-se à pintura de seu painel de ilusão.

Qual nada. Ao redor os lençóis quase intactos e o livro entreaberto com o último trecho lido grifado com lápis verde-escuro: (...) É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. (...)*

Talvez uma madrugada vazia em lugar à festa planejada tenha agregado importantes lições. Havia tristeza naquela manhã, mas havia também consolo. Mais uma vez não sabia de onde vinha mais esse sentimento, mas era coisa sua acreditar no que sentia e conceder vida a isso tudo. E dessa vez sentia tanto, tão intensa e profundamente, que era capaz de apostar que em breve estaria cara a cara – e de pé - com um velho desconhecido: o amor.
 
* Trecho de Clarice Lispector em Felicidade Clandestina
Imagem capturada do site www.carlossimo.arteblog.com.br

sábado, 14 de agosto de 2010

Dos opostos



Lua
Feito o que sinto:
                te
       cen
cres

Ato
Feito o que vejo:
min   
        guan
                  te.


Sugestão para ouvir: Marisa Monte - Ontem ao Luar
Imagem capturada do site: www.astronoo.com

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Toque de Recolher



Pelo asfalto corre o medo
Daquilo que era pra proteger
Num vermelho vivo
De juventude impedida,
De vontade interrompida,
De olhos que fecham mais cedo
Sonhos obrigados a adormecer.

Indignados gritam pelos conceitos
Cidadania, humanidade
Sistema falho, revela os defeitos
Fala mais alto a impunidade.

De quem é a culpa, senhor?
Tá assustado, doutor?
Da segurança do seu vidro blindado
Sequer demonstra estar preocupado.
Pois deveria!
Chegou o dia
Em que a dor desce a favela
Mostra sua cara, revela a mazela
Deixa de doer só em quem sofre com ela.

A dor é grande, é de todo mundo,
Maria, Bruce, Joana e Raimundo
E tudo em claro, bem na sua frente
E até quando vai ser indiferente?

A indignação não pode escolher cor
Raça, gênero, classe social
Que te choque a violência, o horror
Que toque no teu peito igual
Que jamais te pareça banal.
Direito à vida não se estigmatiza
“Polícia para quem precisa.”

Em memória de Bruce Cristian, de 14 anos e tantos outros, anônimos, longe de serem ilustres e que sofrem, quase silenciosos, longe dos holofotes e da comoção nacional, a violência que toma conta das cidades.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Inspiração


Não venho só.
Trago palavras:
E pela boca,
Viram fumaça no ar...

A sugestão pra ouvir, vem da @ticianapaiva, e é esta aqui.
Imagem alterada, capturada do site www.overstress.com.br

sábado, 10 de julho de 2010

Das possibilidades


Quem sabe, nunca houve mentira
Apenas erro de interpretação:
O sempre tem vida útil
- expira
E o nunca às vezes chega
- pela contramão.


Sugestão para ouvir: Lenine - É o que me interessa
Imagem: arquivo pessoal

sexta-feira, 9 de julho de 2010

A Novidade


Saiu a 6ª edição eletrônica da Revista Cultural da Editora Novitas, " absolutamente prenhe de ideias e vivências: de Xico Sá a Sílvio Vasquez, de Abilio Manuel a Eduardo Braga, passando por contistas, articulistas, poetas..."

São entrevistas, artigos, poemas, contos, crônicas e uma infinidade de cultura pra ler. E lá na página 11 tem um poeminha meu, o "Ode (io) à métrica - um sentimento de samba", postado há pouco aqui no blog e que eu tive o prazer de tê-lo publicado na Revista Cultural Novitas.

Quem quiser fazer o dowload em PDF e ter acesso a tudo isso e tmbém aos demais números, é gratuito, basta clicar aqui.

Beijos a tod@s.

sábado, 3 de julho de 2010

Por um Fio




É que a tecitura dos meus versos
Se perde no emaranhado das tuas linhas.
Teia.
Reverso.
Avesso.
Alinhavo
E ponto.
Ainda assim, bordado.


Sugestão para ouvir: "A Linha e o Linho" - Gilberto Gil
Imagem capturada do blog www.extinto.blogger.com.br

sábado, 26 de junho de 2010

Ode (io) à métrica - um sentimento de samba



Te desejei poema livre
Sopro de letra ou canção
Rascunho do qual se vive
Suspiro solto, sem pretensão.

Mas eis que nesse instante não tenho o mote
Vai ver que agora me falta é sorte
Pra me desprender da tua imagem
Pra ver revelar outra paisagem
Pra poder somente falar de mim

Sim

Vai ver minha veia de samba é fraca
Não sei como aproveitar ressaca
Pra compor tão bonitos versos
Pra seguir caminhos mais certos
Pra encontrar outra estação

Não

Quem sabe isso é coisa de despacho
Aquilo que procuro, sempre acho
Não sei onde foi que tudo deu errado
Me empreste seu lenço, muito obrigado
Acho que fui triste dessa vez

Talvez

Melhor compartilhar teu calar
Melhor sentir fundo o meu penar
E sonhar com dias coloridos
Com os olhares proibidos
Nossos desejos distraídos

Quem sabe...

Imagem capturada do blog http://4.bp.blogspot.com
Sugestão pra ouvir: Tristeza Pé-no-Chão

sábado, 19 de junho de 2010

De sexta pra sábado, entre Josés e Franciscos



Era sexta. E José sai pra descansar como se fosse sábado.

É sábado. E Francisco é festejado, como o domingo, que é lindo, novela, missa e gibi.

Um vai. O outro fica. Ambos, inteiros, se deixam para todos. Paratodos.

José, o Saramago é um exemplo emblemático do que é extrapolar, ir além. O senso-comum o restringe ao universo cinematográfico do "Ensaio Sobre a Cegueira" ou de frases pinçadas pelos mecanismos de busca da modernidade, que aproximam a todos da epiderme de tantos, fazendo tuítar vorazmente. Assusta. É muito mais que isso. Foi além de livros, de fronteiras e nacionalidades. Doou suas palavras a todas as causas que o comoviam e as cedia como arma de luta em manifestos, cartas abertas, abaixo-assinados, notas e tantas outras formas que transformaram sua literatura num gigante de infinitos braços. A pontuação que insultava o fôlego dos desavisados, anunciava: falta ar nesse mundo turvo.

O outro, o Francisco, o Chico, ignora. Ignora o tempo, o gênero, a censura, a polícia, o entendimento reto. É homem a ponto de se fazer mulher para dizer fazer sentir o ser feminino. Fala de um amor inteiro, que chora sem esconder os olhos nem medir a altura dos soluços. Muito menos sem se preocupar com o rastejar aos pés da cama. É trilha de vida: de paixão, de ciúmes, de traição, de separação. E assim, junta pedaços de nós.

Em comum? Genialidade. Postura. O que desafiou em metáforas sutis a repressão escancarada da ditadura. O que criticou Barack Obama pelo bloqueio econômico à Cuba, revelando sua insatisfação após a euforia da esperança. O que declara voto, concorda que poderia ser bem melhor, mas ainda assim diz ao “caro amigo” o que acha: “volta, que as coisas estão melhorando”. O que se manifesta contra a pedofilia, o machismo e pelas causas ambientais. O que se assume: tímido no palco, tricolor e melhor escritor que músico.

Um não crê em Deus e o outro não se pune, nem deixa punir. Um não tem medo da morte, o outro roga pela vida. Donos de palavras, mais uma vez se distanciam apenas pela forma de dizê-las. De mãos dadas, questionadores do mundo.

Ambos fizeram da vida o seu melhor espetáculo. Usaram do tempo, deram voltas na história e construíram para si, intencionalmente ou não, a imortalidade. Aqui ou lá, seja “lá”, o lugar que for, jamais comporão repertórios de perda. Serão sempre ganhos. Sempre atuais. Sempre consultados. Sempre ouvidos. E do lado de cá, seja “cá”, também, o lugar que for, em qualquer tempo, haverá sempre público. Haverá sempre aplauso. Haverá sempre estréia.

Roda mundo, roda gigante!

Ambos permanecem. A ambos festejar e celebrar. A palavra se faz vida. E nela, nenhuma tarefa termina. “Deus lhes pague!”

* Trechos do Chico, em itálico;
** Sugestão pra acompanhar: Roda Viva